Quando o Haiti aparece em manchetes da mídia mundial, os temas dominantes quase sempre são violência, fome e medo. O país vive mergulhado em uma profunda crise humanitária, agravada por sucessivos desastres naturais. Relembro os mais recentes e suas devastadoras consequências:
O terremoto de 12 de janeiro de 2010, de magnitude 7,0, ceifou mais de 250 mil vidas – chegando a 300 mil, segundo estimativas oficiais – e deixou até 1,5 milhão de pessoas desabrigadas.
Em 2021, outro forte abalo sísmico, desta vez de 7,2, provocou mais de 2.100 mortes, aprofundando ainda mais a vulnerabilidade social e econômica da população haitiana.
Neste cenário catastrófico e dramático, o que era ruim, ficou ainda pior com gangues armadas dominando grande parte do território haitiano.
Em algumas regiões, segundo a Mission Network News (MNN), mais de metade do país já está sob essa influência das gangues. Isso faz com que comunidades inteiras vivam sob confrontos constantes e milhares de famílias enfrentem uma rotina marcada pela insegurança.
A boa notícia é que, em meio a toda essa devastação, Deus continua escrevendo histórias que, infelizmente, quase nunca chegam aos grandes noticiários – ao contrário das tragédias.
Por isso, quero compartilhar uma delas: a história de mulheres que decidiram não permitir que o caos definisse o seu futuro.
Mulher ministra aula de capacitação profissional em um centro de treinamento apoiado pela Christian World Outreach no Haiti. (Captura de tela/CWO)
Enquanto muitos enxergam apenas um país afundado na crise, elas encontraram uma oportunidade de recomeçar.
Durante três anos, elas participaram de cursos de cosmetologia, costura e culinária sempre que a segurança permitia, com apoio da Christian World Outreach (CWO), organização não governamental que atua no Haiti e em outros países em situação de vulnerabilidade social.
Algumas aulas foram canceladas por causa dos confrontos, e um dos centros de treinamento chegou a fechar as portas. Mesmo assim, elas seguiram firmes. A perseverança falou mais alto que o medo.
Essa determinação revela uma verdade espiritual profunda: as circunstâncias não precisam definir o destino de quem coloca sua fé em Deus.
Vamos relembrar alguns exemplos bíblicos:
José, mesmo enfrentando o sofrimento como escravo e prisioneiro, permaneceu fiel – e prosperou no Egito antes de chegar ao governo.
Daniel foi levado cativo para a Babilônia, permaneceu fiel ao Senhor e experimentou um grande livramento da morte. Depois disso, tornou-se uma das figuras mais influentes do reino.
Ester, já como rainha, ousou entrar na presença do rei para defender a vida de seu povo. Manteve-se firme diante de uma decisão que poderia custar a própria vida – e teve êxito.
A igreja primitiva cresceu e avançou em meio a intensa perseguição. O Reino de Deus nunca dependeu de condições favoráveis para avançar.
O mais bonito na história das mulheres haitianas é que o objetivo delas nunca foi apenas conquistar uma profissão. Ao concluírem a formação, levaram consigo algo muito maior do que um certificado: levaram dignidade, esperança e o Evangelho para dentro de suas casas e comunidades.
Quando uma mulher é fortalecida, toda a família é alcançada. Quando uma mãe recupera sua autoestima e encontra propósito em Cristo, filhos, vizinhos e amigos também passam a experimentar os frutos dessa transformação.
Nossa geração é formada, em grande parte, por pessoas que frequentemente esperam condições ideais para agir: mais recursos, mais segurança, mais estabilidade.
Essas mulheres nos ensinam exatamente o contrário. As haitianas são um exemplo fora da curva, pois caminharam apesar do medo, estudaram apesar da violência e sonharam apesar da incerteza.
A coragem delas não nasceu da ausência de dificuldades, mas da convicção de que Deus continua abrindo caminhos onde, humanamente, parece não haver saída.
O Haiti talvez siga nas manchetes pelos conflitos, mas, aos olhos de Deus, uma revolução silenciosa já começou – feita não por armas, mas por vidas transformadas em Cristo.
Cada pessoa que persevera em meio ao caos faz o Reino avançar, e muitas vezes é a determinação de uma mulher que Deus usa para alcançar uma família e, a partir dela, toda uma comunidade.
Adriana Bernardo (@adrianammbernardo) é jornalista, escritora e idealizadora do grupo feminino cristão “Amigas de Deus”. Professora de Teologia e Aconselhamento, é pós‑graduanda em Neurociências e Comportamento e cursa MBA em Inteligência Artificial. Casada com Bene Bernardo, é mãe de Raphael, Aline e Guilherme, e avó de Raquel, Daniel e Júlia.
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