Há uma diferença delicada entre viver antecipando o futuro e viver aberto ao que vem. Na ansiedade, nossa consciência parece abandonar o presente para habitar futuros imaginados. O “eu” tenta prever acontecimentos, calcular possibilidades, evitar perdas e preparar respostas para aquilo que ainda nem chegou. O amanhã torna-se uma preocupação experimentada hoje. Assim, paradoxalmente, na tentativa de controlar a vida, podemos deixar de vivê-la.
Outra postura existencial torna-se possível quando consentimos em permanecer no presente e reconhecemos que nem tudo o que nos acontece pode ser previsto, explicado ou controlado. Trata-se de uma abertura ao novo, ao inesperado, ao inimaginado. É uma abertura para o novo e para o desconhecido, ampliando uma existência mais autêntica e integrada. Quando essa postura é ativada em nós algo desperta para a abertura a mudanças, ressignificações e transformações.
Nesse horizonte, acontece uma passagem sutil do “eu” para o “me”. O “eu” deseja ser protagonista: articula, planeja, controla, interpreta e performa. Mas a vida também se apresenta de outra maneira, para muito além do protagonismo do “eu”, pois: algo “me” acontece. Algo chega a mim independente de nomeação, classificação, quantificação, qualificação, comparação ou encaixe em alguma categoria conhecida.
Essa abertura não significa passividade nem abandono da responsabilidade. Significa reconhecer humildemente os limites do controle e entregar-se relaxadamente para receber o novo que está a caminho. É permanecer inteiro diante do instante e permitir que a realidade também tenha iniciativa sobre nós. Não é o “eu” que irá resolver no hoje tudo que está no futuro. No agora, algo “ me” acontece como evento de graça.
Talvez viver plenamente seja justamente aprender essa confiança: não exigir que o futuro se torne conhecido antes de chegar, mas estar presente para recebê-lo à medida que chega. O mistério, então, deixa de ser ameaça a ser dominada e torna-se horizonte a ser descoberto. E o presente deixa de ser apenas passagem para transformar-se no lugar onde a vida, verdadeiramente, acontece.
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Texto de Carlos José Hernández (psiquiatra argentino, doutor em medicina) e Clarice Ebert (psicóloga - CRP08-14-038, terapeuta familiar e de casais e mestre em teologia).
Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Membro e docente de EIRENE do Brasil.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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