1. Introdução: O Contexto da Modernidade Tardia
A obra "Ser Cristão na Era Neopagã" (originalmente uma coletânea de discursos, homilias, debates e entrevistas concedidas pelo Cardeal Joseph Ratzinger – posteriormente Papa Bento XVI – entre 1986 e 2004) constitui um marco teológico na análise da crise de identidade eclesial e da fé na modernidade tardia. Dirigido a um público que lida com as tensões entre a fidelidade à Tradição e o diálogo com o mundo contemporâneo, o livro oferece uma eclesiologia de resistência e uma cristologia existencial para um tempo que Ratzinger denomina "neopagão".
O termo “neopaganismo”, cunhado por Ratzinger, não se refere a um culto explícito a divindades antigas, mas sim à dissolução do fundamento metafísico e ético cristão na cultura ocidental, resultando em uma sociedade que, embora tecnologicamente avançada, vive aetheoi – "sem esperança e sem Deus no mundo" (Efésisos 2,12), repetindo a crise dos deuses da Antiguidade. Este artigo visa explorar a tese central de Ratzinger, seu diagnóstico da crise e a solução teológica proposta para o cristão contemporâneo.
2. O Diagnóstico da Crise Neopagã
Ratzinger identifica a era moderna como caracterizada por um processo de secularização radical e relativismo. A modernidade, em sua versão pós-iluminista, busca a autossuficiência humana e a autonomia da razão (o homo autonomus), marginalizando a Deus e a Verdade objetiva.
A. A Exclusão da Verdade Metafísica. A crise neopagã reside na perda da capacidade de reconhecer a Verdade como algo objetivo e transcendente. Ratzinger argumenta que o relativismo ético e epistemológico, ao negar a validade universal da razão e da moral, leva a um vazio espiritual que é preenchido por formas de idolatria imanente – cultos à técnica, ao consumo, ao individualismo subjetivista.
B. O Individualismo e a Descorporificação da Fé. O neopaganismo também se manifesta na tentativa de reduzir a fé cristã a uma experiência individualista e subjetiva ("pietismo romântico" ou meramente ético), desvinculada da estrutura eclesial (a comunhão e a liturgia). Ratzinger reitera que o Cristianismo é fundamentalmente corpóreo (a Encarnação) e comunitário (a Igreja, o Corpo de Cristo). O encontro com Cristo deve gerar a comunhão com a Igreja e a vivência da caridade.
3. A Solução Teológica: A "Revolução Copernicana"
Em resposta ao diagnóstico da crise, Ratzinger propõe uma profunda reorientação teológica e existencial para o crente, que ele compara à revolução copernicana no campo da fé.
A. A Centralidade de Cristo (Cristocentrismo). A tese central de Ratzinger é que o cristão deve realizar a "revolução copernicana" em sua própria vida. Assim como Copérnico tirou a Terra (o homem) do centro do universo para colocar o Sol (Deus/Cristo), o cristão deve deixar de ser o ponto central em torno do qual o universo e as escolhas giram.
"Ser cristão é algo muito mais simples e, no entanto, muito mais revolucionário. É fazer com que a revolução copernicana aconteça, deixando de nos considerarmos o ponto central do universo, em torno do qual devem girar os outros, porque nós começamos a reconhecer com toda a seriedade que somos apenas uma das muitas criaturas de Deus que se movem em torno d'Ele, que é o verdadeiro centro." (Ratzinger, Ser Cristão na Era Neopagã)
Essa centralidade de Cristo é o antídoto para o subjetivismo neopagão. O amor cristão e a conduta pessoal devem ser determinados por uma referência absoluta: Jesus Cristo, o Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem.
B. Liturgia e Beleza como Lócus da Verdade. Ratzinger recorrentemente aponta para a Liturgia e a Beleza como essenciais para a identidade cristã. A liturgia não é um espetáculo autoreferencial, mas o encontro objetivo e público da Igreja com o Cristo ressuscitado.
A orientação da oração litúrgica (o facing East, ou ad orientem), abordada em seus textos, simboliza o descentramento do homem e a reorientação para Deus.
A Beleza (pulchrum) na fé (na arte, na música e, sobretudo, na liturgia) é o último caminho capaz de tocar a sensibilidade do homem moderno, que muitas vezes desconfia da verdade puramente racional.
4. Conclusão: Teologia da Esperança e do Pequeno Rebanho
"Ser Cristão na Era Neopagã" é uma obra de teologia profética que convida à lucidez e à coragem. Ratzinger não propõe uma estratégia política para dominar a cultura, mas sim um retorno às essências – à Palavra áspera e cortante de Cristo e à identidade eclesial autêntica.
Ele prevê que o futuro do Cristianismo passará por ser um "pequeno rebanho" (a pusillus grex), purificado do formalismo e do sincretismo, mas intensamente fiel e radiante em sua vida. A obra desafia os pós-graduandos em Teologia a uma fé madura, que harmonize fé e razão (Fides et Ratio), e que seja capaz de testemunhar a Verdade de Cristo como verdadeira filosofia e vida plena em um mundo que tenta viver sola ratio (somente a razão) e sine Deo (sem Deus).
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Daniel Santos Ramos (@profdanielramos) é professor (Português/Inglês - SEE-MG, EJA/EM/EFII), colunista do Guia-me e professor de Teologia em diversos seminários. Possui Licenciatura em Letras (2024), Bacharelado/Mestrado em Teologia (2013/2015) e pós-graduação em Docência. Autor de 2 livros de Teologia, tem mais de 20 anos de experiência ministerial e é membro da Assembleia de Deus em BH.
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