Precisamos aprender a olhar além do comportamento

Série “Setembro Amarelo”: Nem sempre aquilo que vemos no comportamento de uma pessoa revela, de imediato, aquilo que ela está vivendo por dentro.

fonte: Guiame, Darci Lourenção

Atualizado: Sexta-feira, 11 Setembro de 2026 as 4:01

(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

No primeiro artigo desta série Antes do pedido de socorro existem sinais, conversamos sobre como o sofrimento emocional nem sempre é visível e que, antes de um pedido de socorro, podem existir sinais.

Agora, precisamos avançar um pouco mais: nem sempre aquilo que vemos no comportamento de uma pessoa revela, de imediato, aquilo que ela está vivendo por dentro.

Alguém que se tornou irritado pode estar emocionalmente sobrecarregado. Quem começou a evitar encontros talvez esteja enfrentando ansiedade, tristeza ou esgotamento. Uma pessoa que parece indiferente pode estar apenas tentando se proteger de uma dor que ainda não consegue explicar.

Por isso, antes de rotular alguém como “difícil”, “frio”, “preguiçoso” ou “antissocial”, talvez devêssemos nos perguntar: o que pode estar acontecendo com essa pessoa?

Na psicologia, compreendemos que o comportamento não deve ser observado isoladamente, mas dentro de um contexto.

Uma primeira orientação importante é perceber mudanças em relação ao padrão habitual da pessoa. Mais importante do que comparar alguém com os outros é observar se ela está diferente de como costumava ser.

Uma pessoa comunicativa que passa a se isolar, alguém cuidadoso que começa a negligenciar responsabilidades ou uma pessoa tranquila que apresenta irritabilidade frequente merece atenção.

Isso não significa fazer diagnósticos (essa é uma tarefa profissional), mas reconhecer que mudanças intensas, persistentes ou que começam a prejudicar a vida cotidiana podem indicar sofrimento e justificar uma aproximação cuidadosa.

Uma segunda orientação é observar a frequência, a intensidade e a duração dessas mudanças. Todos nós temos dias ruins, queremos ficar sozinhos em alguns momentos ou reagimos mal quando estamos cansados.

O sinal de atenção aumenta quando determinado comportamento se repete, torna-se muito intenso ou permanece por um período significativo.

Também devemos considerar quando várias mudanças aparecem juntas: alterações importantes no sono ou no apetite, abandono de atividades antes prazerosas, isolamento, queda no desempenho, desesperança ou dificuldade para realizar tarefas habituais.

Não devemos transformar cada mudança em motivo de alarme, mas também não é prudente normalizar aquilo que está mostrando que alguém já não consegue seguir como antes.

A terceira orientação é trocar o julgamento pela aproximação e pela pergunta acolhedora. Em vez de dizer “você está muito estranho ultimamente” ou “você precisa reagir”, podemos dizer: “Percebi que você está mais quieto nos últimos dias. Como você está de verdade?”

Se houver abertura, escute sem interromper, minimizar ou oferecer soluções imediatamente. E se a pessoa expressar desesperança intensa, falar sobre morte, sobre não querer mais viver, sobre ser um peso ou demonstrar risco de se machucar, isso deve ser levado a sério.

Nesses casos, acolher também significa não deixar a pessoa sozinha diante de um risco imediato e ajudá-la a chegar a familiares responsáveis, profissionais de saúde ou serviços de emergência. Amor também é reconhecer quando precisamos chamar outras pessoas para ajudar a cuidar.

Jesus nos oferece um modelo precioso desse olhar. Em diferentes momentos dos Evangelhos, Ele não enxergava apenas aquilo que estava aparente; via pessoas que a multidão já havia transformado em rótulos.

Onde outros viam um pecador, um doente, um rejeitado ou alguém inconveniente, Cristo enxergava uma pessoa que precisava ser vista e acolhida.

Esse princípio continua necessário em nossas relações. Olhar além do comportamento não significa justificar todas as atitudes nem tentar interpretar tudo o que o outro faz.

Significa lembrar que por trás de um comportamento existe uma pessoa, e por trás de algumas mudanças pode existir uma dor pedindo para ser percebida.

Talvez uma das formas mais cristãs de cuidado seja justamente esta: antes de julgar o que vemos, aproximar-nos com amor suficiente para tentar compreender aquilo que ainda não conseguimos ver.

O Pai ama você.

 

Darci Lourenção (@pra_darci_lourencao) é psicóloga, pastora, coach, escritora e conferencista. Foi Deã e Professora de Aconselhamento Cristão. Autora dos livros “Na intimidade há cura”, “A equação do amor”, “Viva sem compulsão” e “Devocional Minha Família no Altar”.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Antes do pedido de socorro existem sinais

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