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“Pastorear é fazer curativos nos feridos, enquanto você mesmo sangra”?

Quero chamar a sua atenção para o fato de que não damos a devida importância aos ferimentos e sofrimentos de natureza psicológica.

fonte: Guiame, Eduardo Silva

Atualizado: Sexta-feira, 18 Outubro de 2019 as 12:08

(Foto: Unsplash)
(Foto: Unsplash)

Nos últimos dias recebi de alguns grupos de pastores uma postagem com esses dizeres: “Pastorear é fazer curativos nos feridos, enquanto você mesmo sangra”.

Em nenhum momento é citado o autor da frase. Fiquei com a impressão de que esse entendimento seja senso comum, ou seja, muitos estão de acordo com essa afirmação, muitos estão sangrando. Se minha impressão for correta, isso quer dizer que muitos estão “identificados” com essa situação, seja pelo fato de que estão passando por isso neste exato momento ou porque entendem que essa é uma contingência do exercício ministerial. Nas palavras do professor Daniel Omar Perez da UNICAMP, “examinar os processos de identificação nos permite compreender a forma em que nos relacionamos com nós mesmos, com os outros, com os ideais e com os objetos.[1]

Incialmente pergunto: por que estamos identificados enquanto pastores com alguém que está ferido, que não está sendo cuidado e mesmo assim cuida? Mas será que tem que ser assim? Vejamos as implicações reais dessa afirmação:

O primeiro aspecto é o de “sangrar”, recorro ao artigo do médico Dr. Paulo Silveira [2], onde ele faz um alerta para o fato de que o sangramento é uma das maiores causas de morte por trauma. Afirma de forma categórica que estancar o sangramento é fundamental para evitar a morte que pode ocorrer em um curto espaço de tempo caso esse procedimento não seja feito. Ou seja, não podemos conviver com um sangramento sob pena de estarmos colocando a nossa própria vida em risco. Para cuidarmos de quem sangra, temos primeiro de cuidar do nosso próprio sangramento. Um outro tipo de sangramento é o caso muito conhecido da mulher com fluxo de sangue, narrado no evangelho de Marcos 5,24-34. Além da debilitação física que a hemorragia provocava, havia ainda muito sofrimento em função da fragilização emocional ou mesmo do rompimento do laço social que a doença acarretava uma vez que a condição dela era de constante impureza e suas demandas por reconhecimento estavam interditadas, o que certamente produzia muito sofrimento. Após a experiência de cura, Jesus a despede dizendo: “Vá em paz e fique livre do seu sofrimento.” Mc 5.34

Continuando na metáfora baseada no artigo médico para falar dessa hemorragia, quero falar de outro fator relevante, o trauma causador.

A palavra trauma, vem do grego τραῦμα que significa ferida. No sentido físico, pode ser causado por diversos fatores, como acidentes mais ou menos violentos, agressões, geralmente indesejadas, provocando algum tipo de lesão ou dano, podendo até levar à morte. Alguma marca ou cicatriz sempre fica, ainda que interna!

Podemos usar a mesma palavra para falar de “traumas emocionais”, tais como rejeição, abandono ou ameaça de nossa integridade física (seja ela real ou fruto de uma fantasia), que provocam dano ao nosso aparelho psíquico e as vezes com reflexos em nosso físico, como é o caso das doenças psicossomáticas. Esses traumas podem ter sua origem na infância, não raro são experiências desagradáveis as quais esquecemos ou recalcamos, mas podem ocorrer em outras fases de nossa vida também.

Um detalhe importante é que podemos reviver determinados traumas, dores e sofrimentos quando somos colocados em situações que invocam cenas e momentos do nosso passado que estão encobertos, guardados em lugares profundos. Como analogia podemos pensar em um determinado membro do seu corpo, seu braço direito por exemplo, que sofreu uma fratura e fica tanto a marca quanto uma maior sensibilidade. Quando entra em choque ou fica exposto a uma possível nova lesão, nossa atitude é sempre reflexa, protegemos ou recolhemos o membro automaticamente.

Considerando que a vida é feita de encontros e desencontros, de altos e baixos, momentos bons e momentos ruins, alegrias e angústias, podemos prever que, em algum momento, essa dinâmica das relações interpessoais, tão presentes na atividade pastoral, possa provocar em nós algum tipo de novo ferimento e sofrimento, despertando antigos afetos. Quero chamar a sua atenção para o fato de que não damos a devida importância aos ferimentos e sofrimentos de natureza psicológica e subestimamos seus efeitos devastadores.

Se você é alguém que está sangrando, saiba que o primeiro que deve receber cuidado é você mesmo. Além de estancar esse “sangramento” é preciso ir fundo no tratamento do ferimento original para que o cuidado seja completo.

Como disse o apóstolo Paulo a Timóteo, tenha cuidado de ti mesmo.

1. PEREZ, D.O. Por que nos identificamos? p.9 Curitiba, Editora CRV, 2018
2. Paulo Silveira é coordenador do Centro de Trauma do Hospital São Lucas Copacabana.  https://www.saolucascopacabana.com.br/blog/sangramento-e-uma-das-maiores-causas-de-morte-por-trauma/

Por Eduardo Silva é Teólogo, Psicanalista e Pós-Graduado em Teoria Psicanalítica. Atende na Clínica de Psicanálise em São Paulo. Promove seminários sobre saúde emocional, relações afetivas, sobre crianças e adolescentes no mundo contemporâneo e curso para formação e treinamento de conselheiros. É um dos idealizadores do Grupo de Estudos sobre “Religião, Laço Social e Psicanálise”, que reúne pesquisadores da USP, PUC e Universidade Metodista entre outras.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

 

 

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