Você já se sentiu invisível em meio à multidão? Ou talvez, preso a uma situação dolorosa por tanto tempo que a solução parecia depender exclusivamente da ajuda de terceiros que nunca chegava?
Em João 5, somos transportados para um cenário de desesperança humana e intervenção divina. A história do paralítico no Tanque de Betesda não é apenas um relato de cura física; é um espelho da condição humana, marcada pela solidão, pela distração espiritual e pela tendência de buscarmos socorro nos lugares comuns.
Neste estudo, vamos mergulhar nas águas profundas de João 5:1-15, analisando como a pergunta de Jesus expôs a ferida mais profunda daquele homem e como, muitas vezes, focamos no movimento das águas enquanto ignoramos Aquele que é adorado por todos os anjos.
O Cenário de Miséria em Betesda
O texto começa situando-nos em Jerusalém, próximo à Porta das Ovelhas. Ali havia um tanque chamado Betesda (que significa "Casa de Misericórdia"). No entanto, o cenário descrito parecia tudo, menos misericordioso aos olhos humanos.
"Nestes jazia grande multidão de enfermos, cegos, mancos e ressecados, esperando o movimento da água." (João 5:3)
Sua esperança girava em torno de um evento sobrenatural: a descida de um anjo que agitava as águas. Certamente ele testemunhou essa realidade que prontamente descreveu: o primeiro a entrava seria curado. E como todos estavam ansiosos para receber seus milagres, o tanque acabou se tornando um ambiente de competição cruel, onde a cura era um prêmio para o mais rápido ou o mais forte, e não para o mais necessitado.
A Pergunta que Revelou a Alma
Jesus se aproxima-se de um homem que sofria há trinta e oito anos (quase quatro décadas de dor, imobilidade e frustração) e faz uma pergunta que, à primeira vista, parece retórica:
"E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são?" (João 5:6)
Por que perguntar o óbvio? Porque Jesus queria trazer à tona o que estava no coração daquele homem. A resposta do enfermo é surpreendente. Ele não diz "Sim, Senhor, eu quero!" ou "Por favor, cura-me!". Em vez disso, ele apresenta uma justificativa baseada em sua solidão.
"Não Tenho Homem Algum"
A resposta do paralítico revela que sua maior dor talvez não fosse apenas a paralisia das pernas (ou outra), mas a paralisia da alma causada pelo abandono.
"O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando a água é agitada, me ponha no tanque; mas, enquanto eu vou, desce outro antes de mim." (João 5:7)
Aqui reside uma lição poderosa. A fé desse homem estava limitada à intervenção humana. Sua solidão é evidente (Eclesiastes 4:9-12). Ele acreditava que para o milagre acontecer, ele precisava de dois fatores: Um evento esporádico (o anjo agitar a água) e a ajuda humana (alguém para empurrá-lo). E como ele se sentia ignorado e invisível, lamentou: "não tenho homem algum". Seu lamento reflete o grito de muitos cristãos hoje que, mesmo dentro das igrejas, sentem que sua bênção depende de conexões, de pastores famosos ou da ajuda de terceiros, esquecendo-se do acesso direto ao Trono da Graça (Mateus 6:6; Hebreus 4:16).
A Distração Espiritual
Há um ponto crucial de cegueira espiritual neste relato. O homem estava tão focado no evento, na descida do anjo e na água agitada, que não percebeu Quem estava diante dele.
Ele lamentava não conseguir chegar a tempo, sem saber que estava conversando com o próprio Criador e Senhor de todos os anjos.
A Bíblia é clara sobre a supremacia de Cristo e, por diversas vezes, o apóstolo Paulo nos lembra que Deus ordena aos anjos que adorem o Filho:
"E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem." (Hebreus 1:6)
E no Apocalipse, vemos a posição exaltada do Cordeiro em relação a todos os seres celestiais:
"Que com grande voz diziam: Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças. E ouvi a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que estão no mar, e a todas as coisas que neles há, dizendo: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre. E os quatro animais diziam: Amém. E os vinte e quatro anciãos prostraram-se, e adoraram ao que vive para todo o sempre." (Apocalipse 5:12-14)
O paralítico olhava para o tanque esperando uma intervenção angelical, enquanto o Rei, a quem os anjos servem e adoram, estava ali para lhe oferecer algo maior. Quantas vezes não fazemos o mesmo? Ficamos distraídos com a metodologia do milagre ("tem que ser do jeito que eu imagino", "tem que ser quando a água agitar") e perdemos a simplicidade da voz de Cristo.
A Palavra de Cristo
Jesus não discute com o homem. Ele não oferece ajuda para empurrá-lo para o tanque. Jesus ignora completamente o sistema no qual o homem confiava (o tanque e o anjo) e opera pelo poder de Sua Palavra.
"Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu leito, e anda." (João 5:8 - ACF 2011)
Observe que Jesus não censurou ou descredibilizou o fato sobre o anjo e a água, Ele somente agiu independentemente disso. Observe a autoridade imediata. Não houve oração longa, não houve necessidade de água, nem de ajuda humana. Levanta-te: A cura foi instantânea. Toma o teu leito: O que antes carregava o homem (a cama), agora é carregado por ele. O sinal da miséria virou troféu da graça. Anda: A restauração da vida e da autonomia.
O versículo 9 confirma: "Logo aquele homem ficou são". A palavra de Jesus foi suficiente. Ele é a própria "água viva" muito acima das águas paradas daquele tanque.
Para Onde Você Está Olhando?
A história de Betesda nos confronta com uma realidade dura, mas libertadora. É possível estarmos tão viciados em nossa dor e tão apegados aos nossos "métodos" de solução que não reconhecemos a presença de Deus ao nosso lado.
Aquele homem achava que seu problema era a falta de alguém ("não tenho homem algum"). Jesus mostrou que a solução não era um homem para empurrá-lo, mas somente dar ouvidos para O Homem, o Deus-Homem, Cristo Jesus, para ser livre.
Se você tem esperado que "as águas se agitem" ou que alguém note sua dor para que você possa ser abençoado, olhe para cima. Tire os olhos do tanque. Aquele que é maior que os anjos, Aquele que tem todo o poder no céu e na terra, pela Sua Palavra, pergunta a todos nós: "Queres ficar são?".
Que nossa resposta não seja uma desculpa ("ninguém faz isso por mim"), mas uma entrega total Àquele que pode fazer infinitamente mais do que pedimos ou pensamos (Efésios 3:20).
Felipe Morais é servo temente ao Senhor, e atua como pastor na Igreja Batista do Reino. Pós-graduado em Teologia, é um biblicista apaixonado pelas Escrituras. Comentarista, escritor e cronologista bíblico, atua como professor no YouTube pelos canais Curso Bíblico Online e Devocional Bíblico Online.
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