Há uma cena cada vez mais comum nas conversas do nosso tempo: duas pessoas estão falando, mas nenhuma delas está realmente ouvindo. Enquanto uma termina uma frase, a outra já está preparando mentalmente a resposta. Enquanto alguém conta uma experiência, quem escuta procura uma comparação com a própria história. Quando surge uma opinião diferente, a preocupação deixa de ser compreender o que foi dito e passa a ser encontrar rapidamente uma forma de contestar.
Vivemos cercados por opiniões. Elas chegam pelas redes sociais, pelos noticiários, pelos grupos de mensagens, pelos vídeos curtos e pelas conversas do cotidiano. Somos estimulados a comentar acontecimentos antes mesmo de compreendê-los completamente. Temos acesso a mais informação do que qualquer geração anterior, mas isso não significa que tenhamos desenvolvido a mesma disposição para escutar.
Em muitos ambientes, ouvir passou a parecer passividade. Quem fala demonstra posicionamento; quem responde rapidamente demonstra inteligência; quem tem uma opinião forte demonstra segurança. O silêncio, por outro lado, pode ser interpretado como falta de conhecimento ou ausência de personalidade.
O resultado é uma sociedade em que todos parecem ter alguma coisa a dizer, mas poucos demonstram interesse genuíno em entender o que existe do outro lado.
Essa mudança tem consequências. Quando deixamos de ouvir, começamos a enxergar pessoas apenas através das posições que elas ocupam. Alguém passa a ser “de esquerda” ou “de direita”, “religioso” ou “não religioso”, “conservador” ou “progressista”, “a favor” ou “contra”. A pessoa inteira desaparece atrás de uma etiqueta.
E quando reduzimos alguém a uma posição, fica muito mais fácil rejeitá-lo.
A escuta verdadeira exige o movimento contrário. Ela pede tempo, atenção e disposição para admitir que uma história pode ser mais complexa do que aquilo que conseguimos enxergar à primeira vista.
Isso não significa concordar com tudo. Ouvir não é abandonar convicções, relativizar a verdade ou aceitar qualquer argumento como válido. É simplesmente reconhecer que compreender alguém e concordar com alguém são coisas diferentes.
A tradição cristã tem uma contribuição importante para essa conversa justamente porque não trata a escuta como uma habilidade meramente social. Tiago aconselha: “Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se irar” (Tiago 1:19). A ordem das palavras é significativa. Antes da resposta vem a escuta. Antes do julgamento, a disposição de compreender.
Jesus levou isso ainda mais longe em sua maneira de lidar com as pessoas. Nos Evangelhos, por exemplo, encontramos homens e mulheres que chegam até Ele carregando histórias diferentes, dúvidas, contradições, culpa, sofrimento e expectativas. Jesus não tratava pessoas como casos genéricos e nem como multidão. O mesmo Jesus que lidava com as pessoas no plural, também as tratava no singular. Ele percebia indivíduos.
Quando conversa com a mulher samaritana, por exemplo, não ignora sua história nem reduz sua identidade ao que a sociedade havia decidido sobre ela. Quando encontra Zaqueu, não o transforma simplesmente na caricatura de um cobrador de impostos. Quando conversa com Nicodemos, não responde apenas à posição religiosa daquele homem; entra em uma conversa que revela suas dúvidas e limitações.
Existe uma qualidade na maneira como Cristo se relaciona com as pessoas que ultrapassa a comunicação eficiente: Ele as enxerga e às dedica atenção.
Essa é uma diferença importante em uma época em que estamos cada vez mais acostumados a reagir a conteúdos e cada vez menos preparados para lidar com pessoas.
É possível discordar de alguém e continuar interessado em sua história. É possível reconhecer um erro sem transformar quem errou em um inimigo. É possível defender uma convicção sem abandonar a dignidade daquele que pensa de outra maneira.
Uma fé que conhece a verdade, mas perdeu a capacidade de ouvir, corre o risco de transformar pessoas em argumentos. E quando isso acontece, a comunicação deixa de ser uma ponte e passa a funcionar como uma trincheira.
Ouvir exige uma espécie de humildade que o nosso tempo nem sempre recompensa. Algumas das conversas mais importantes da nossa vida não serão aquelas em que conseguimos convencer alguém. Serão aquelas em que conseguimos compreender uma pessoa que, até então, enxergávamos apenas de longe.
Em um ambiente saturado de opiniões, a escuta pode parecer uma atitude pequena. Na verdade, ela revela algo bastante grande sobre a maneira como entendemos o outro.
Se cada pessoa carrega dignidade porque foi criada à imagem de Deus, então ninguém deveria ser reduzido à sua utilidade, ao seu erro, à sua opinião ou ao grupo ao qual pertence.
Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.
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