Vivemos cercados de informação. Notícias chegam antes mesmo de procurarmos por elas, opiniões são publicadas em poucos segundos e qualquer pessoa pode transformar uma convicção pessoal em conteúdo para milhares de pessoas. Nunca foi tão fácil falar. Ao mesmo tempo, parece cada vez mais difícil permanecer diante daquilo que não queremos ouvir.
A nossa relação com a verdade também mudou. Muitas vezes, aquilo que consideramos verdadeiro já não passa primeiro pelo critério da realidade, mas pelo critério da identificação. Se uma informação confirma aquilo que pensamos, compartilhamos. Se contradiz nossa visão de mundo, procuramos outra fonte que diga o contrário. Aos poucos, a verdade deixa de ser algo que confronta nossas convicções e passa a ser aquilo que confirma nossas preferências.
Isso produz uma sociedade cansada de discordâncias e cada vez mais acostumada a construir pequenas versões particulares da realidade.
O problema não está apenas na quantidade de informações falsas que circulam. Existe algo mais profundo acontecendo. Estamos perdendo a disposição para admitir que podemos estar errados.
Essa dificuldade aparece em praticamente todos os ambientes. Na família, quando uma discussão termina porque alguém prefere preservar o orgulho a reconhecer um erro. No trabalho, quando uma crítica é recebida como ofensa. Nas redes sociais, quando uma pessoa apaga qualquer opinião que contradiga a sua. Até mesmo na igreja, quando uma convicção pessoal recebe uma autoridade que pertence somente às Escrituras.
A verdade se torna inconveniente quando exige de nós alguma mudança.
É muito mais confortável encontrar uma explicação que confirme aquilo que já decidimos acreditar. O problema é que uma verdade que nunca nos confronta provavelmente não passa de uma extensão das nossas próprias preferências.
O cristianismo começa em um lugar diferente.
A fé cristã não apresenta a verdade apenas como um conjunto de ideias corretas que precisamos aceitar. O próprio Jesus afirmou ser a verdade. Isso significa que, para o cristianismo, a verdade não é simplesmente uma ferramenta para vencer discussões. Ela está relacionada a uma pessoa diante de quem também precisamos nos colocar.
Essa perspectiva muda a maneira como lidamos com nossas certezas.
Seguir Cristo significa aceitar que nem sempre estaremos certos. Significa reconhecer que nossas opiniões, experiências, preferências e interpretações precisam ser examinadas. Significa permitir que a verdade de Deus também confronte aquilo que gostaríamos que fosse verdade.
Essa talvez seja uma das partes mais difíceis da fé.
É relativamente simples defender aquilo em que acreditamos quando encontramos pessoas que concordam conosco. O verdadeiro teste acontece quando somos confrontados por algo que exige revisão, arrependimento ou mudança.
A Bíblia não apresenta a verdade como instrumento de superioridade. Jesus confrontou pessoas profundamente religiosas, mas também confrontou aqueles que viviam longe da religião. Ele não se adaptava às expectativas de nenhum dos grupos. Sua presença revelava aquilo que havia de verdadeiro e também aquilo que precisava ser transformado.
Existe uma diferença importante entre amar a verdade e gostar de estar certo.
Quem ama apenas a própria opinião transforma qualquer discordância em ameaça. Quem ama a verdade consegue continuar ouvindo mesmo quando a conversa se torna desconfortável. Existe humildade nessa postura, porque reconhecer a verdade também significa reconhecer nossos próprios limites.
Talvez seja por isso que o ambiente contemporâneo precise menos de pessoas que tenham opinião sobre tudo e mais de pessoas dispostas a discernir antes de falar.
Isso não significa abandonar convicções ou tratar todas as ideias como igualmente verdadeiras. Significa justamente o contrário. Se a verdade importa, precisamos desenvolver critérios para reconhecê-la. Precisamos aprender a ouvir, verificar, estudar, comparar e, quando necessário, mudar de posição.
A fé cristã não deveria produzir pessoas incapazes de rever suas próprias conclusões. Deveria produzir pessoas suficientemente seguras em Cristo para não precisarem proteger o próprio orgulho a qualquer custo.
Existe uma beleza particular na verdade quando ela deixa de ser uma arma e passa a ser um caminho.
Ela pode nos corrigir sem nos destruir. Pode revelar nossos erros sem retirar nossa dignidade. Pode mostrar aquilo que precisa mudar sem transformar nossa vida em uma sentença definitiva.
É por isso que a verdade continua sendo tão importante. Em uma época em que cada pessoa pode construir sua própria narrativa e escolher diariamente aquilo que deseja ouvir, permanecer diante da verdade exige coragem. Nem sempre ela será confortável. Nem sempre confirmará aquilo que pensamos. Algumas vezes, ela exigirá mudança. Mas, para quem segue Cristo, existe uma razão para não fugir dela.
A verdade não é nossa inimiga. Ela é uma das formas pelas quais Deus nos chama a sair das ilusões que construímos sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre Ele. E talvez seja justamente quando a verdade se torna inconveniente que descobrimos o quanto realmente estamos dispostos a segui-la.
Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.
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