Augusto Cury não cura

Augusto Cury se apresenta como alternativa à polarização política, enquanto sua visão sobre saúde emocional e Jesus levanta questionamentos.

fonte: Guiame, Sergio Renato de Mello

Atualizado: Quarta-feira, 16 Setembro de 2026 as 10:08

Augusto Cury durante sabatina no Jornal da Manhã. (Captura de tela/YouTube/Jovem Pan News)
Augusto Cury durante sabatina no Jornal da Manhã. (Captura de tela/YouTube/Jovem Pan News)

Mesmo sendo considerado um dos mais famosos psiquiatras-literatos brasileiros da atualidade, nada confirma que a incipiente trajetória de Augusto Cury na política brasileira busca levar a inteligência emocional e a gestão dos afetos para o público que deles precisa, atuando como um "pronto-socorro das almas". 

Quanto à posição política de Cury, ele faz parecer que veio trazer cura. Ele mesmo deixa claro que sua candidatura à Presidência da República está acima das polarizações, apresentando-se como um salvador em meio a bolsonaristas e lulistas, conservadores e progressistas. Um centro à parte.

Será?

Essa neutralidade é ilusória, fazendo-o parte do sistema que está aí e de uma das polarizações silenciosas. Um mais do mesmo. O ponto favorável para a direita é que em um possível segundo turno, seu eleitorado, tendente à reflexão e contra ideologias, deve votar em Flávio Bolsonaro, não em Lula.

Agora, o Augusto Cury, psiquiatra que o público brasileiro conhece há algum tempo (mesmo fora do divã), merece o crédito profissional que tem. Defende a ideia de que as ansiedades e afecções da alma podem ser resolvidas pela mente e pela psiquiatria. Essa abordagem difere de pensadores como Spinoza, Descartes e Kant, que entenderam o afetivo e o intelectual como interligados, afirmando que o indivíduo pode identificar suas angústias espirituais por meio da razão, sem necessidade de ajuda profissional. 

De fato, a confusão de sentimentos perturba a mente.

A perturbação vem da mistura de critérios morais. Quanto mais perdida a mente entre várias e várias escolhas morais, mais perdida a pessoa. Perguntemos para quem perdeu tudo na vida de repente (família, lar, emprego, filhos obedientes, etc.) se consegue pensar direito num primeiro momento? 

Terapias convencionais, livros de autoajuda, políticas assistenciais apenas tratam feridas visíveis, sendo incapazes de curar uma alma ferida ou aliviar a dor intensa provocada por tanta confusão mental em quem não sabe mais o que fazer, o que decidir. A falta de atenção à causa real agrava a doença, tornando o identificável confuso.

A relação que Cury tem com Jesus é um tanto intrigante. 

Cury considera Jesus "o homem mais inteligente da história", destacando-o como um gestor emocional para os dias atuais. Esse elogio pode ser ofensa por desvalorizar quem é a pessoa de Cristo. Apesar disso, a abordagem não é inválida diante da carência espiritual atual, pois pode semear algo que, dependendo do ambiente, pode frutificar, resultando em almas resgatadas.

 

Sergio Renato de Mello é defensor público de Santa Catarina, membro da Igreja Universal do Reino de Deus, autor de obras jurídicas e filosóficas, e dos seguintes livros: Fenomenologia de Jornal, O que não está na mídia está no mundo e Voltaram de Siracusa.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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