Há personagens que terminam uma história sem realmente sair de nós. Permanecem em algum lugar da imaginação, ocupando pensamentos, despertando desejos e, algumas vezes, provocando comparações silenciosas com aquilo que temos diante dos olhos.
Foi o que aconteceu com muitas espectadoras após assistirem à série “Meu Nome é Farah”. Os personagens Farah Erşadi (Demet Özdemir) e Tahir Lekesiz (Engin Akyürek) despertaram encantamento, suspiros e declarações apaixonadas. Nas redes sociais, não foram poucas as mulheres que afirmaram estar apaixonadas por Tahir.
E talvez seja exatamente aqui que uma pergunta precise ser feita: o que acontece dentro de nós quando começamos a nos apaixonar por alguém que nunca existiu fora de um roteiro?
Antes de qualquer crítica, é preciso reconhecer: isso é humano.
A ficção foi criada, entre tantas outras coisas, para nos fazer sentir. Histórias nos atravessam porque somos seres capazes de imaginar, projetar, identificar-nos e estabelecer vínculos emocionais com aquilo que observamos. A pesquisa em Psicologia da Mídia demonstra que espectadores podem experimentar identificação com personagens, imersão narrativa e formas de relacionamento parasocial, isto é, vínculos unilaterais estabelecidos com figuras midiáticas, incluindo personagens fictícios (GILES, 2002; SCHRAMM et al., 2024).
Um personagem pode representar aquilo que desejamos encontrar. Pode representar cuidado, presença, romantismo, proteção, desejo, lealdade e intensidade. Pode representar, inclusive, uma versão de amor que talvez esteja faltando em alguma parte da nossa própria história.
E é justamente por isso que precisamos ter cuidado.
Não com o encantamento, mas com a idealização.
O personagem é escrito. A pessoa real é vivida.
Existe uma diferença fundamental entre um personagem e uma pessoa.
O personagem foi construído. Possui falas escolhidas, comportamentos selecionados e cenas cuidadosamente pensadas. Seus momentos foram escritos, dirigidos, editados e apresentados de maneira a produzir determinados efeitos emocionais.
A câmera não acompanha todas as suas manhãs. Não registra todas as vezes em que ele esteve cansado, impaciente, egoísta, confuso ou emocionalmente indisponível. Não o vemos tentando conciliar trabalho, responsabilidades, contas, família, filhos, saúde, frustrações e as pequenas exigências de uma vida compartilhada.
A narrativa nos entrega aquilo que interessa à narrativa.
A vida, não.
A vida entrega o pacote completo.
![]()
Demet Özdemir (Farah Erşadi) e Engin Akyürek (Tahir Lekesiz), protagonistas da série Meu Nome é Farah. (Foto: Divulgação)
Pesquisas sobre transporte narrativo mostram que algumas pessoas podem se envolver profundamente com mundos ficcionais, experimentando emoções, identificação com personagens e diferentes níveis de imersão na história (THOMPSON et al., 2018). Isso ajuda a compreender por que determinadas narrativas não permanecem apenas na tela: elas podem continuar produzindo pensamentos e sentimentos depois que a história termina.
E talvez esse seja um dos grandes problemas quando começamos a comparar relacionamentos reais com personagens fictícios: estamos comparando uma pessoa inteira com um recorte cuidadosamente produzido.
É uma comparação impossível.
E injusta.
Por que romantizamos?
Na Psicologia, compreendemos que nossas experiências emocionais não dependem apenas daquilo que acontece diante de nós, mas também dos significados que atribuímos ao que vivemos.
Quando encontramos em uma história características que desejamos, podemos investir naquele personagem significados que ultrapassam aquilo que efetivamente está sendo apresentado. Não estamos apenas vendo o personagem. Estamos colocando algo de nós nele.
Nossos desejos.
Nossas expectativas.
Nossas experiências anteriores.
Nossa ideia de amor.
Nosso imaginário sobre casamento.
Nossa necessidade de sermos escolhidas.
Nossa compreensão de cuidado e intimidade.
Nossa história afetiva.
A identificação com personagens pode envolver justamente essa aproximação psicológica entre o espectador e a figura apresentada na narrativa. Estudos apontam que a identificação pode influenciar emoções, atitudes e a maneira como o público se relaciona com os conteúdos narrativos (DE GRAAF et al., 2012). Revisões recentes também indicam associações entre identificação, transporte narrativo, percepção de similaridade e relações parasociais com personagens e figuras midiáticas (MULA-MÁRQUEZ; NAVA-ARQUILLO; MATÍAS-GARCÍA, 2026).
Por isso, aquilo que parece ser simplesmente paixão por um personagem também pode revelar algo sobre nós mesmas.
Talvez a pergunta não seja:
“Por que eu estou apaixonada por ele?”
Mas:
“O que ele representa que eu gostaria de viver?”
Essa pergunta muda tudo.
Porque, quando conseguimos respondê-la, deixamos de procurar um personagem e começamos a compreender uma necessidade.
O problema começa quando a ficção vira régua
Gostar de um homem romântico não é um problema.
Desejar carinho não é um problema.
Querer alguém presente, atencioso, apaixonado e comprometido não é um problema.
O problema começa quando transformamos essas características em uma régua impossível para medir pessoas reais.
Quando olhamos para o marido e pensamos: “Ele não é assim”.
Quando olhamos para o namorado e pensamos: “Por que ele não fala comigo desse jeito?”
Quando começamos a acreditar que o amor verdadeiro deveria produzir constantemente frio na barriga, declarações extraordinárias, intensidade e grandes gestos.
É aí que precisamos voltar à realidade.
Porque o amor real não acontece apenas nos momentos em que tudo é bonito.
Ele acontece também quando alguém chega cansado. Quando existe uma conta para pagar. Quando uma criança precisa de atenção. Quando o casal discorda. Quando a rotina pesa. Quando o corpo muda. Quando os sonhos mudam. Quando a vida atravessa o romance.
![]()
Demet Özdemir (Farah Erşadi), protagonista da série Meu Nome é Farah. (Foto: Divulgação)
O amor real precisa sobreviver ao cotidiano.
E isso é muito mais difícil do que ser romântico durante algumas cenas.
O casamento não é uma série
Talvez precisemos lembrar disso com mais frequência: o casamento não é uma série.
Não existem episódios de cinquenta minutos nos quais todos os conflitos são resolvidos antes dos créditos. Não existe roteiro que garanta que duas pessoas permanecerão exatamente iguais ao longo dos anos.
Pessoas mudam.
E os relacionamentos também.
A mulher que você conheceu pode amadurecer, cansar, mudar de sonhos, enfrentar dores e descobrir novas partes de si.
O homem que você conheceu também.
Amar alguém por muitos anos exige conhecer novamente essa pessoa muitas vezes.
É por isso que o amor precisa ser nutrido.
Não basta ter amado.
É preciso continuar aprendendo a amar.
Há momentos em que amar será celebrar.
Há momentos em que será ouvir.
Há momentos em que será esperar.
Há momentos em que será conversar.
Há momentos em que será estabelecer limites.
Há momentos em que será perdoar.
E há momentos em que será reconhecer que determinada relação deixou de ser saudável e precisa ser interrompida.
Porque maturidade afetiva também é saber diferenciar imperfeição de abuso, conflito de violência, dificuldade de desrespeito e perdão de permissividade.
Perdoar não significa aceitar violência.
Amar não significa tolerar humilhação.
Compreender a humanidade do outro não significa abrir mão da própria dignidade.
A Bíblia não apresenta um amor de fantasia
Existe uma beleza profunda no modo como a Bíblia apresenta o amor. Ela não o reduz a sentimento.
Em 1 Coríntios 13, encontramos uma descrição que talvez seja menos cinematográfica, mas infinitamente mais profunda: “O amor é paciente, o amor é bondoso” (BÍBLIA, 2011, 1Co 13:4). O texto prossegue apresentando características que deslocam o amor do campo da fantasia para o campo da prática: não maltratar, não buscar apenas os próprios interesses, não guardar rancor e alegrar-se com a verdade. (BibleGateway)
É interessante perceber isso.
Porque é relativamente fácil amar quando tudo desperta encantamento.
Difícil é amar quando precisamos exercer paciência.
Difícil é amar quando precisamos ouvir.
Difícil é amar quando precisamos reconhecer nossos próprios erros.
Difícil é amar quando precisamos escolher a bondade depois de uma frustração.
![]()
Demet Özdemir (Farah Erşadi) e Engin Akyürek (Tahir Lekesiz), protagonistas da série Meu Nome é Farah. (Foto: Divulgação)
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Ele me faz sentir como uma personagem de romance?”
Mas:
“Existe nessa relação espaço para respeito, verdade, responsabilidade, reciprocidade e crescimento?”
Isso é amor em território real.
O amor precisa ser perdoado
Existe uma frase que pode parecer estranha:
O amor precisa ser perdoado.
Não porque amar seja errado, mas porque pessoas reais ferem umas às outras, às vezes sem intenção.
Dizem coisas que não deveriam dizer.
Esquecem.
Falham.
Se confundem.
Perdem a paciência.
Tomam decisões equivocadas.
O casamento coloca duas histórias humanas dentro da mesma casa.
E duas histórias humanas carregam feridas, expectativas, medos e limitações.
Por isso, o amor precisa de graça.
A Bíblia orienta: “Suportem uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor os perdoou” (BÍBLIA, 2011, Cl 3:13). (Bíblia Online)
Mas existe uma diferença fundamental entre perdão e permanência em uma situação destrutiva.
O perdão pode libertar.
O limite pode proteger.
E ambos podem existir dentro de uma vida emocionalmente madura.
Talvez você não esteja apaixonada por ele
Talvez você esteja apaixonada pelo que ele simboliza.
E essa percepção pode ser libertadora.
Talvez você tenha descoberto que sente falta de romantismo.
Então, converse sobre isso.
Talvez tenha percebido que deseja mais demonstrações de afeto.
Expresse isso.
Talvez tenha descoberto que deseja ser admirada.
![]()
Demet Özdemir (Farah Erşadi) e Engin Akyürek (Tahir Lekesiz), protagonistas da série Meu Nome é Farah. (Foto: Divulgação)
Pergunte-se por que isso é importante.
Talvez tenha percebido que deseja uma relação mais profunda.
Comece a construir profundidade onde você está, se houver espaço saudável para isso.
E, se você estiver solteira, permita que esse encantamento seja uma pista sobre aquilo que deseja, mas não transforme um personagem em um contrato que nenhum ser humano conseguirá cumprir.
Porque existe uma diferença entre ter critérios e ter expectativas irreais.
Não mate a poesia.
Apenas coloque-a no lugar certo.
Não abandone o romantismo. Abandone a comparação impossível.
Não precisamos assistir a uma história de amor e sair dela emocionalmente anestesiados.
Também não precisamos abandonar o romantismo.
O mundo já é suficientemente duro para que deixemos de apreciar aquilo que é bonito.
Podemos suspirar.
Podemos sorrir.
Podemos nos emocionar.
Podemos gostar do personagem.
Podemos até brincar dizendo que estamos apaixonadas.
Mas precisamos saber voltar.
Voltar para a própria casa.
Para a própria história.
Para o relacionamento real.
Para nós mesmas.
Existe uma maturidade bonita em conseguir dizer:
“Eu sei que isso é ficção. Eu sei que é bonito. Eu sei que me emociona. Mas eu não vou exigir que a minha vida seja escrita como um roteiro.”
Essa maturidade não mata o romance.
Ela o torna possível.
Porque a vida real também pode ser extraordinária
Existe uma beleza que a ficção raramente consegue reproduzir: a beleza de alguém que escolhe permanecer depois de conhecer quem você realmente é.
Não a versão editada.
Não a versão maquiada.
Não a versão interessante.
Você.
Com seus medos.
Suas imperfeições.
Seus dias ruins.
Suas mudanças.
Seus silêncios.
E alguém que continua escolhendo construir.
Isso é profundamente romântico.
É muito mais fácil escrever um personagem perfeito do que viver uma vida imperfeita ao lado de alguém.
É muito mais fácil criar uma declaração inesquecível do que sustentar uma relação durante anos.
É muito mais fácil escrever “eu nunca vou te abandonar” do que aprender, na prática, a atravessar as estações de uma vida a dois.
Talvez o verdadeiro romance não esteja em alguém que nunca decepciona.
Talvez esteja em duas pessoas que compreendem que amar é também aprender.
Aprender a ouvir.
Aprender a pedir perdão.
Aprender a colocar limites.
Aprender a ceder sem desaparecer.
Aprender a permanecer sem se anular.
Aprender a cuidar.
Aprender a recomeçar.
Quando os créditos sobem
A série termina.
A tela escurece.
Os créditos sobem.
E nós voltamos para a nossa vida.
É nesse momento que precisamos lembrar: personagens podem ser perfeitos dentro de uma história porque foram criados para ela. Pessoas reais não.
Pessoas reais envelhecem.
Mudam.
Erram.
Choram.
Cansam.
Aprendem.
E, quando existe amor saudável, também crescem.
Por isso, talvez seja possível admirar Fajã sem desejar transformar um personagem em padrão para todos os homens.
É possível apreciar a fantasia sem abandonar a realidade.
![]()
É possível sonhar sem idealizar.
É possível sentir sem perder a consciência.
É possível romantizar uma cena sem romantizar a própria vida.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de maturidade emocional: saber sair da ficção sem deixar de acreditar no amor.
Porque o amor que merece ser vivido não é aquele que parece perfeito na tela.
É aquele que, fora dela, consegue permanecer verdadeiro.
E talvez seja exatamente aí que a nossa história começa.
Não quando encontramos alguém perfeito.
Mas quando encontramos alguém real e descobrimos que, apesar de todas as imperfeições, existe respeito, reciprocidade, escolha, cuidado e vontade de construir.
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (BÍBLIA, 1993, Pv 4:23). (Bíblia Online)
Guardar o coração não significa fechá-lo para o amor.
Significa não o entregar às ilusões.
Significa saber admirar sem idealizar.
Sentir sem perder a realidade.
Sonhar sem abandonar a consciência.
E compreender que a vida talvez nunca tenha os mesmos diálogos de uma série.
Mas pode ter algo que nenhum roteiro consegue garantir:
uma história verdadeira.
E histórias verdadeiras, embora imperfeitas, podem ser extraordinariamente bonitas.
Referências
BÍBLIA. Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2011.
DE GRAAF, Anneke; HOEKEN, Hans; SANDERS, José; BEENTJES, Johannes W. J. Identification as a mechanism of narrative persuasion. Communication Research, v. 39, n. 6, p. 802-823, 2012. DOI: 10.1177/0093650211408594. (Utrecht University)
GILES, David C. Parasocial interaction: a review of the literature and a model for future research. Media Psychology, v. 4, n. 3, p. 279-305, 2002. DOI: 10.1207/S1532785XMEP0403_04. (DOI)
GREEN, Melanie C.; DILL, Karen E. Engaging with stories and characters: learning, persuasion, and transportation into narrative worlds. In: ROSS, Karen (ed.). The Oxford handbook of media psychology. Oxford: Oxford University Press, 2013. p. 449-461. DOI: 10.1093/oxfordhb/9780195398809.013.0025. (OUP Academic)
MÖRI, Michelle; FAHR, Andreas. Parasocial interactions with media characters: the role of perceived and actual sociodemographic and psychological similarity. Frontiers in Psychology, v. 14, 1297687, 2023. DOI: 10.3389/fpsyg.2023.1297687. (PubMed Central (PMC))
MULA-MÁRQUEZ, Yolanda; NAVA-ARQUILLO, Begoña; MATÍAS-GARCÍA, Jose Antonio. Parasocial relationships and identification with fictional characters: a systematic review on their impact on personality, identity, attachment and social relationships. Current Psychology, v. 45, art. 1376, 2026. DOI: 10.1007/s12144-026-09928-3. (DOI)
SCHRAMM, Holger; LIEBERS, Nicole; BINIAK, Laurenz; DETTMAR, Franca. Research trends on parasocial interactions and relationships with media characters: a review of 281 English and German-language studies from 2016 to 2020. Frontiers in Psychology, v. 15, 1418564, 2024. DOI: 10.3389/fpsyg.2024.1418564. (Frontiers)
THOMPSON, Jacqueline M. et al. Individual differences in transportation into narrative drama. Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts, v. 12, n. 2, 2018. DOI: 10.1037/gpr0000130. (DOI)
Vanessa Bentes é psicóloga e teóloga, pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Saúde Mental pelo Sírio-Libanês e Psicologia Hospitalar pelo Albert Einstein. É autora do livro “Corações Voltados para Deus” e “Inclinados para Sua Vontade”, publicados pela Reino Editorial.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
Leia o artigo anterior: Farmacologia e saúde mental à luz da Bíblia e da psicologia: Fé, tratamento e cuidado