Três anos após o massacre de 7 de Outubro, as marcas do ataque do Hamas ainda fazem parte da vida de israelenses e judeus ao redor do mundo. Para a brasileira Márcia Kelner Polisuk, que vive em Israel há 17 anos e atua há mais de duas décadas na formação de jovens judeus, aquele dia também provocou uma transformação pessoal na maneira de falar sobre Israel e defender a identidade judaica.
Márcia é Senior Advisor do Hillel na América Latina, organização internacional dedicada a engajar jovens na identidade, nos valores, na história e na tradição judaica.
Presente em centenas de campi e em países como EUA, Canadá, Alemanha, Polônia, Ucrânia, Israel, Argentina, Uruguai e Brasil, o Hillel também promove programas de intercâmbio em Israel.
No dia 7 de outubro de 2023, Márcia estava no Brasil quando recebeu as primeiras notícias dos ataques. Enquanto tentava retornar a Israel, onde estavam seus irmãos, acompanhou as imagens que começavam a revelar a dimensão do massacre.
Desde então, sua atuação ganhou também as redes sociais. Uma entrevista concedida na Praça dos Sequestrados, em Israel, viralizou e levou Márcia, que até então não tinha Instagram, a usar a plataforma para falar sobre Israel, antissemitismo e o impacto da guerra.
Em entrevista ao Guiame, Márcia falou sobre as consequências do 7 de Outubro para a sociedade israelense, o impacto sobre a nova geração de judeus, sua atuação junto aos jovens, a cobertura da guerra pela imprensa e as críticas que faz à postura do governo brasileiro e de organismos internacionais.
Guiame: Onde você estava no dia 7 de outubro de 2023 e como soube que Israel estava sendo atacado? O que mais marcou você naquele dia?
Márcia Kelner Polisuk: No dia 7 de outubro, eu estava no Brasil. Tenho um pai de 94 anos e trabalho no Hillel, com uma organização na América Latina, na formação de jovens líderes. Quando soube do ataque, entrei em pânico. Eu me obriguei a assistir a todos os vídeos e fiquei muito mobilizada, tentando voar para Israel, mas não consegui.
O que mais me marcou foi pensar que o país inteiro poderia ser atacado e que nós não sabíamos o que fazer. Digo “nós” porque todos os meus irmãos estavam lá.
Nós somos um povo muito unido. Então, quando você ataca um, está atacando a todos.
G.: Para quem vive em Israel, existe um “antes e depois” do 7 de outubro? O que mudou na vida cotidiana dos israelenses?
M.K.P.: Trabalho com os jovens, promovendo palestras, encontros e festividades. Hoje, o principal foco é preparar os estudantes para o antissemitismo, principalmente explicar a história judaica, a história do nosso povo e as nossas raízes, para que eles entendam e tenham cada vez mais um sentimento de pertencimento.
Agora, o mais importante, após o 7 de Outubro, é explicar quem somos nós, o que mudou no Estado de Israel e falar sobre essa população em que pelo menos uma pessoa de cada família conhece ou tem uma vítima.
É um país mínimo, do tamanho de Sergipe, e esse ataque, esse massacre, esse sequestro afetou o país como um todo. Estamos nos cicatrizando, mas é muito difícil. Famílias foram dizimadas.
G.: Como brasileira e judia, como você avalia a postura do governo brasileiro diante dos ataques de 7 de outubro e dos brasileiros assassinados e sequestrados pelo Hamas?
M.K.P.: Na América Latina, como sou brasileira, posso dizer que, no Brasil, foi um choque, uma decepção absurda, uma vergonha. Um governo que se alia a ditaduras e não reconhece o Hamas como um grupo terrorista.
Eu me sinto agredida e ofendida pelo governo não ter feito nada pelos brasileiros que foram assassinados e sequestrados.
G.: Depois do 7 de Outubro, você passou a se posicionar publicamente sobre Israel e ganhou visibilidade nas redes sociais. O que levou você a assumir esse papel e o que tem buscado comunicar?
M.K.P.: Eu dei uma entrevista na Praça dos Sequestrados que viralizou. Foi uma forma de manifestar a minha indignação e tentar acordar o povo brasileiro.
Quando ainda estava no Brasil, em novembro, a ONG em que trabalho, o Hillel Rio, fez uma ação em toda a Eletromídia do Rio de Janeiro. Na inauguração, também houve uma reportagem comigo, e eu dizia: “Gente, daqui a pouco vai fazer um mês que essas pessoas foram sequestradas. São crianças, são idosos, são civis. Poderia ser um de vocês”.
Isso está gravado porque eu jamais, no meu pior pesadelo, poderia imaginar que seriam dois anos e que os bebês seriam assassinados a sangue frio. Então, é isso que a gente tenta explicar.
Depois, uma entrevista que dei à Globo, na Praça dos Sequestrados, viralizou no Instagram. Eu nem tinha Instagram. Abri uma conta e sigo até hoje. A minha forma de contribuir com essa loucura toda é continuar postando sobre Israel, sobre as verdades, porque as inverdades a imprensa compra.
O Ministério da Saúde de Gaza é o Hamas. Um ministério, qualquer ministério, é o Hamas. A ONU é uma decepção absurda. Nos últimos 20 anos, tornou-se aliada de ditaduras antissemitas.
Nós temos o Hillel Neuer, que também trouxemos ao Brasil. Ele atua na ONU, confrontando a própria ONU e mostrando as loucuras que são votadas contra Israel e a favor das ditaduras e do terrorismo.
G.: Como você avalia a forma como Israel e a guerra têm sido retratados pela imprensa desde o 7 de Outubro?
M.K.P.: São pessoas como o Thiago Ávila que têm espaço. A imprensa tendenciosa tem espaço e, mesmo quando erra, não pede desculpas. E o impacto do erro é muito grande.
Então, a BBC News pediu desculpas, mas, depois disso, as pessoas já ficaram com a ideia de que Israel havia bombardeado um hospital, quando não bombardeou. A explosão foi provocada por um foguete lançado de Gaza pela Jihad Islâmica Palestina, mas é mais fácil acusar Israel.
Então, a forma como percebo isso mais claramente é através de uma imprensa enviesada, empoderada por um governo antissemita, aliado ao Irã e às ditaduras, e ignorante.
G.: Como os jovens judeus têm reagido a esse cenário? Você percebe maior interesse em conhecer suas raízes e se engajar na defesa de Israel?
M.K.P.: Muito interessados em entender e se engajar. E o Hillel tem conseguido fazer um trabalho muito bacana de formar essa juventude através de estudos sobre as nossas raízes e do orgulho do Estado de Israel, que emana luz, conhecimento, ética e moral para o mundo inteiro, através de diversas áreas do conhecimento.
E, principalmente, existe o orgulho das IDF, que são as Forças de Defesa de Israel. É um exército de defesa, não de ataque. Então, são jovens como eles que estão se voluntariando, têm postura, têm ética e são orientados.
Perdemos muitos soldados por conta de tomar muito cuidado com a população civil. Em uma guerra urbana, está comprovado pela própria ONU que as perdas do lado de lá, que lamentamos muito e evitamos o quanto podemos, comparadas às de outras guerras urbanas, são mínimas.
Nós arriscamos os nossos soldados. Infelizmente, as perdas acontecem, lamentamos muito e tentamos fazer o nosso melhor, inclusive nos sacrificando por eles.