Quase metade dos cristãos praticantes nos EUA afirma que confiaria na inteligência artificial para apoiar seu crescimento espiritual, segundo uma pesquisa recente do Barna Group.
O levantamento também mostra que esse grupo utiliza a tecnologia no trabalho e na vida pessoal com frequência superior à média dos americanos.
Os dados são baseados em duas pesquisas realizadas pelo Barna Group: uma com 1.514 adultos nos EUA, em novembro de 2025, e outra com 442 pastores protestantes, em dezembro do mesmo ano.
Apesar da abertura para recorrer à IA em questões espirituais, esse não é o principal motivo pelo qual os cristãos utilizam a tecnologia.
A maioria afirma recorrer às ferramentas de inteligência artificial para aprender, buscar conselhos práticos e aprimorar a escrita – usos muito mais frequentes do que interpretar as Escrituras ou procurar orientação espiritual direta.
Na vida pessoal, 44% dos cristãos praticantes dizem usar inteligência artificial "com muita frequência" ou "frequentemente", índice 13 pontos percentuais acima da média dos adultos americanos (31%). Entre os cristãos não praticantes, esse percentual cai para 29%.
O mesmo cenário se repete no ambiente profissional. Cerca de 39% dos cristãos praticantes afirmam utilizar IA com frequência no trabalho, enquanto entre os adultos americanos em geral esse índice é de 26%.
Pastores e aconselhamento espiritual
A pesquisa também revela uma diferença significativa entre cristãos e seus líderes religiosos.
Embora os cristãos pratiquem um uso intenso da tecnologia, os pastores ainda adotam a IA de forma bem mais limitada.
Apenas 16% dos pastores afirmam utilizar inteligência artificial frequentemente na vida pessoal, e somente 5% dizem fazê-lo muito frequentemente. Cerca de 45% relatam usar a tecnologia pouco ou nunca, enquanto aproximadamente um terço afirma recorrer a ela apenas ocasionalmente.
No contexto profissional, a diferença permanece. Apenas 24% dos pastores dizem utilizar IA com muita frequência, percentual bem inferior aos 39% registrados entre os cristãos praticantes.
Mesmo utilizando menos a tecnologia, os pastores continuam sendo a principal referência para orientar os fiéis sobre seu uso. Entretanto, apenas cerca de 12% afirmam sentir-se preparados para oferecer esse tipo de aconselhamento.
Daniel Copeland, vice-presidente de pesquisa do Barna Group, resume essa diferença:
"Se você perguntar às pessoas, com um simples sim ou não, se elas usam IA, o pastor médio e o americano médio terão respostas muito parecidas. A diferença realmente aparece na frequência de uso."
Outro dado que chamou atenção foi a percepção sobre o aconselhamento oferecido por ferramentas de inteligência artificial.
Uma pesquisa anterior do Barna, divulgada no início deste ano, mostrou que cerca de um terço dos cristãos praticantes nos EUA considera que o aconselhamento espiritual fornecido por ferramentas de IA é tão bom quanto o de um pastor. Esse índice é superior ao observado entre cristãos não praticantes e pessoas sem identificação cristã.
Debate sobre segurança
As conclusões da pesquisa surgem em meio ao aumento das discussões sobre segurança e responsabilidade no desenvolvimento da inteligência artificial.
A Tech Justice Law, organização de interesse público voltada à regulamentação da IA, defende que essas ferramentas sejam desenvolvidas com mecanismos de supervisão, transparência e proteção aos usuários.
Segundo a organização:
"Nosso trabalho se baseia em uma premissa simples, porém importante: se for ilegal, exploratório ou perigoso para um ser humano se envolver em determinada conduta, isso não deve ser considerado imunizado simplesmente porque o dano é mediado por software."
A entidade lembra que, no outono de 2024, entrou com uma ação por homicídio culposo contra a Character.AI, seus cofundadores Noam Shazeer e Daniel DeFreitas, além do Google, em nome de Megan Garcia.
Mais recentemente, a Tech Justice Law também participou de uma ação judicial contra a OpenAI e seu CEO, Sam Altman, representando Scott Winters, ex-pastor da Flórida.
Segundo o processo, Winters quase perdeu a vida após seguir, durante meses, orientações médicas incorretas fornecidas pelo ChatGPT-4o, além de desenvolver uma forte dependência da ferramenta.
A ação também acusa a empresa de utilizar informações relacionadas às crenças religiosas do ex-pastor para aumentar seu engajamento com o sistema. De acordo com a denúncia, os problemas de saúde e a dependência da tecnologia acabaram levando Winters a abandonar o ministério pastoral.