MENU

As indulgências da igreja na pós-modernidade

A substituição da fé apostólica por um misticismo fluido.

fonte: Guiame, Daniel Ramos

Atualizado: Quinta-feira, 12 Fevereiro de 2026 as 4:03

(Foto: Annie Spratt/Unsplash)
(Foto: Annie Spratt/Unsplash)

1. Introdução 

A pós-modernidade, dentre tantos outros desafios, estabelece um novo ambiente para a vivência religiosa. Caracterizada pela dissolução das certezas, pelo individualismo e pela "incredulidade em relação às metanarrativas" (LYOTARD, 1998, p. 12), ela altera profundamente a compreensão dos mecanismos de mediação espiritual. 

Tradicionalmente, os fundamentos apostólicos estruturam a relação entre comunidade e transcendência. Porém, observa-se uma mudança: tais ofícios vêm sendo progressivamente substituídos por práticas místicas autônomas, líderes carismáticos independentes, espiritualidades terapêuticas e experiências digitais. 

Neste cenário, ressurgem, embora em forma simbólica, as “indulgências” como respostas rápidas ao sofrimento e às angústias existenciais. Trata-se de uma indulgência não sacramental, mas emocional, terapêutica e performática. Como afirma Charles Taylor, a modernidade tardia produz "uma espiritualidade do imediato" (TAYLOR, 2010, p. 487), na qual cada indivíduo cria sua própria gramática do sagrado. 

2. A Pós-Modernidade e o Novo Panorama Religioso 

A pós-modernidade, segundo Lyotard, marca o fim da legitimidade dos grandes discursos totalizantes. A religião, que historicamente ofereceu uma narrativa unificadora sobre a existência, sofre com a fragmentação e com a pluralização das fontes de verdade. Nas palavras do autor: “o saber é substituído por um fluxo de informações deshierarquizadas” (LYOTARD, 1998, p. 23). Com isso, o fiel deixa de ser membro de uma tradição para se transformar em consumidor espiritual. Fato é, que a fragmentação da autoridade religiosa não implica necessariamente sua destruição, mas sua reconfiguração em novas plataformas de legitimação, como redes sociais, comunidades virtuais e lideranças autoproclamadas. 

Bauman argumenta que, na modernidade líquida, as relações humanas e institucionais tornam-se frágeis, voláteis e utilitárias. Segundo ele, “a religiosidade contemporânea tende ao formato de mercadoria” (BAUMAN, 2013, p. 76). Assim, a espiritualidade passa a funcionar como um produto: rápida, personalizável e descartável. 

Na lógica do consumo, surgem “bens espirituais imediatos”, que funcionam como verdadeiras indulgências pós-modernas: campanhas de prosperidade, objetos ungidos,

orações instantâneas, fórmulas de cura emocional e bênçãos digitalizadas. Logo, isso implica em um marketing agressivo para sensibilizar o “contribuinte”. Daí o perigo de uma religião mantenedora dos caprichos de sua liderança vaidosa, que vê o cristianisno como investimento, não como experiência de Deus na pessoa de Jesus Cristo. 

3. O Retorno das “Indulgências”: uma Leitura Contemporânea 

Historicamente, as indulgências eram práticas penitenciais ligadas à remissão das penas temporais. Hoje, renascem na forma de promessas rápidas de cura espiritual ou emocional. Exemplo disso são discursos religiosos que asseguram: a) “quebra instantânea de maldições”, b) “prosperidade imediata”, c) “cura emocional plena em um único encontro”. Tais práticas funcionam como “atalhos misticistas”, oferecendo resolução simbólica de conflitos internos sem mediação apostólica. 

Com o avanço tecnológico, surgem bênçãos transmitidas ao vivo, orações automatizadas, aconselhamentos por chat e “orações programadas” em plataformas digitais. Trata-se de uma indulgência virtual: imediata, portátil e personalizada. Essa virtualização também cria a ilusão de que a graça pode ser reduzida a um fluxo de dados, independentemente da comunhão presencial. 

Na liturgia da igreja, por exemplo, é bizarro o que vem fazendo com o uso do óleo. Como se fosse um fetiche, o uso excessivo do óleo nas igrejas vem fazendo enriquecer quem vende tais utensílios, a exemplo das grandes lojas que vendiam bíblias e materiais de estudo teológicos, agora, parte delas é dedicada as parafernálias do misticismo. Na porta da igreja, tem óleo para a “unção” das mãos, na hora das ofertas, também se unge as mãos novamente. A vulgarização dos elementos esvaziando seu sentido e objetivo. 

Na igreja dos tempos apostólicos, a orientação da Escritura é clara na Carta de Tiago 5:14-16 somente aos enfermos, que é mencionada o uso do óleo. Nas outras coisas, basta somente o uso da “imposição de mãos”. Nada mais! 

Até mesmo, os propósitos de oração vem sendo ressignificados nos estranhos tempos da pós-modernidade, de onde antes, os crentes sabiam o caminho da intimidade com Deus através dos joelhos dobrados, lágrimas, gemidos. Tudo isso, na intimidade das portas fechadas, dentro do quarto, no secreto (cf. Mateus 6:6). Mas para alguns, “Deus mandou fazer um propósito de pano de saco”. E ao invés de se dobrar diante de Deus no secreto, vão pelas ruas afora, vestidos de “pano de saco”, vilipendiado a Noiva do Cordeiro, uma exposição que ridiculariza a Igreja do Senhor. Nenhum dos apóstolos fizeram o uso do “pano de saco”. Portanto, não tem utilidade para a Igreja, uma vez que a nossa fé tem origem nos santos apóstolos. 

4. A Substituição dos Ofícios Apostólicos pelo Misticismo Pós-Moderno 

A estética do espetáculo religioso — fumaça, luzes, música intensa, danças litúrgicas — cria ambientes de êxtase emocional. A figura do “pastor” é substituída pelo “apresentador”, cuja autoridade vem da performance e não da vontade divina. Não se trata de alguém direcionado por Deus para presidir o culto, mas de alguém com linguagem, performance, oratória, musicalidade que chama a atenção do povo. A prática da “excelência” substituindo a graça devocional. A benção de comungar a presença de Deus com os irmãos, colocando no escanteio a simplicidade. 

Movimentos contemporâneos oferecem “cura interior”, “cura da memória”, “auto-cura espiritual”, combinando psicologia popular, autoajuda e elementos cristãos. Funcionam como indulgência terapêutica, pois aliviam culpas e tensões sem exigir mudança ética profunda. A estética mágica dos cultos são sinônimos do “agir do Senhor”, fraudando o sutil agir progressivo do Espírito Santo. 

Taylor ainda afirma que o indivíduo pós-moderno “torna-se o árbitro final de sua própria experiência espiritual” (TAYLOR, 2010, p. 549). Assim, o fiel cria sua própria teologia, selecionando elementos que lhe convêm. E o pior de tudo isso, é quando essa “teologia particular” sempre vem sustentada pelo dizer “foi Deus que mandou”. Mas, uma teologia que contradiz a Escritura não vem de Deus. De novo, as pessoas que insistem em converter o cristianismo a sua própria vaidade. 

5. Consequências Teológicas e Pastorais 

Ao dissolver a “apostolicidade da fé”, a fé torna-se privatizada. A Igreja deixa de ser “corpo” para se tornar “plataforma”. Cada um no seu próprio pensamento, sendo guiados por seus próprios corações, muitas vezes, obstinados. Daí a subjetivação da hermenêutica cristão, multifacetada em “teorias reduzidas ao pessoal, o particular; distanciado da tradição”. Basta apenas uma divergência substancial, para haver divisão para abertura de mais “uma portinha”, tudo isso fundamentado no: “eu senti de Deus…” 

Quando a religião é reduzida a sensações emocionais, perde-se sua profundidade ética, doutrinal e espiritual. Não há continuidade de um discipulado, nem mesmo um acompanhamento pastoral para a verificação e direcionamento espiritual. São ovelhas sem pastor, situação lamentada pelo próprio Senhor Jesus em Mateus 9:36-38. Nada pode ser mais desastroso para a fé cristã, do que a subjetivação do pensamento doutrinário, terra fértil para misturas heréticas, tendenciosas e distante da mesma comunhão dos apóstolos (cf. Gálatas 1.8-19). 

Por isso, o desafio atual não está em rejeitar a modernidade, mas dialogar com ela. A Igreja precisa reconhecer as demandas espirituais do homem pós-moderno sem abdicar de seus elementos constitutivos da fé apostólica. Os santos irmãos da igreja apostólica eram firmes na doutrina, na comunhão e no partir do pão (cf. Atos 2:42-47). 

Caríssimo, a pós-modernidade produz uma espiritualidade fluida, imediatista e sensorial. Nesse contexto, a “fé apostólica” perde espaço para misticismos individualizados e práticas que funcionam como indulgências emocionais ou digitais. Não se trata de um fenômeno marginal, mas estrutural. A Igreja é chamada a repensar sua linguagem, presença e mediação, mantendo fidelidade à tradição enquanto dialoga com novos modelos de subjetividade espiritual. 

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. HEELAS, Paul; WOODHEAD, Linda. The Spiritual Revolution. Oxford: Blackwell, 2005. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. São Paulo: José Olympio, 1998. TAYLOR, Charles. A Era Secular. São Paulo: UNESP, 2010. VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 2002. 

Acesse mais sobre o assunto no podcast: 

 

Daniel Santos Ramos (@profdanielramos) é professor (Português/Inglês - SEE-MG, EJA/EM/EFII), colunista do Guia-me e professor de Teologia em diversos seminários. Possui Licenciatura em Letras (2024), Bacharelado/Mestrado em Teologia (2013/2015) e pós-graduação em Docência. Autor de 2 livros de Teologia, tem mais de 20 anos de experiência ministerial e é membro da Assembleia de Deus em BH.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: As cinco mentiras contadas nas Igrejas confrontadas na Palavra 

 

veja também