Por um bom tempo, li o texto de Salmos 30:5 e fiquei tentando entender o que ele queria dizer verdadeiramente.
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” (Salmos 30:5)
Depois de viver mais de 50 anos, a gente começa a entender melhor alguns textos da Bíblia que nos ensinam de maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda.
Quantos de nós já passamos por problemas simples ou complexos que nos tiraram o sono?
Quantas noites já ficamos acordados, remoendo um problema, para depois acordarmos e percebermos que demos a ele uma dimensão que talvez não merecesse?
Enquanto pensava sobre tudo isso, lembrei do que o salmista Davi escreveu. Entre o choro da noite e a alegria da manhã existe um intervalo. E foi então que pensei: e se alguns problemas também precisassem de um intervalo? De algumas horas de silêncio e quietude antes de reagirmos?
Imagine aquele estresse no trabalho, aquele conflito em casa com um parente, aquela discussão com um amigo ou mesmo a famosa DR (discutindo a relação) com seu parceiro. Quantas dessas situações poderiam ser amenizadas se simplesmente déssemos um tempo para que as emoções diminuíssem?
Foi pensando nisso que lembrei do dia de ontem. Tive um aborrecimento que, naquele momento, parecia terrível. Eu estava estressada e com raiva. Mas resolvi me aquietar. Fui para casa, deitei e dormi. Sim, eu estava com raiva. Mas não dei espaço para que aquele sentimento evoluísse para um problema ainda maior. Evitei a discussão, o desgaste e simplesmente me aquietei.
Dormi. E, no dia seguinte, ao acordar, meu foco já era outro. Minha energia também.
O problema foi resolvido? Não. Pelo menos ainda não. Mas eu já não estava mais consumida pelo sentimento do dia anterior.
E foi aí que percebi uma coisa: às vezes, o que muda não é imediatamente a situação, mas a maneira como nós conseguimos enxergá-la depois de algum tempo.
Tente lembrar de um dia difícil em que você foi dormir chorando de raiva, tristeza, dor ou sofrimento, sem nenhum controle sobre a situação. Ao acordar, provavelmente você já não estava mais chorando. Talvez a alegria também não estivesse estampada no seu rosto. O problema talvez continuasse ali.
Mas o aquietar-se mudou alguma coisa. Mudou você diante daquele problema.
Hoje, quando medito nesse texto “o choro pode durar uma noite” vejo que a nossa tristeza tem um tempo. Ela existe, está lá e faz parte de nós, porque somos humanos. Mas ela não precisa, necessariamente, permanecer em nós o tempo todo.
Entristecer-se com algo é humano e absolutamente compreensível. No entanto, o texto segue trazendo esperança: “Mas a alegria vem pela manhã.”
Isso não significa que toda manhã você acordará alegre, como se nada tivesse acontecido. Significa, para mim, que existe a possibilidade de um novo estado de espírito. Existe esperança. Existe uma nova perspectiva. Existe alegria que pode voltar a encontrar espaço dentro de nós.
Mas isso nem sempre acontece imediatamente. Diante de algumas dores, precisamos de tempo. E esse tempo também é uma forma de cuidado.
Foi então que comecei a pensar nas nossas 24 horas.
O que você fez das suas últimas 24 horas? E o que pretende fazer das próximas 24?
Diante de situações que drenam sua energia e tiram sua alegria, talvez você possa se dar a tranquilidade que merece nas próximas 24 horas. Não tome decisões por impulso. Não discuta quando estiver com raiva. Não aja enquanto estiver debaixo da ira.
Deixe passar 24 horas antes de responder àquela mensagem grosseira que recebeu.
Respire. Faça uma oração. Acalme-se. Dê uma volta. Ouça uma música. Durma. Mas não aja no impulso. Na maioria das vezes em que agimos impulsivamente, falamos e fazemos coisas das quais certamente nos arrependemos depois.
E aqui está uma coisa importante: 24 horas não vão resolver todos os problemas.
Diante de dores profundas, perdas e sofrimentos, talvez 24 horas não sejam suficientes e está tudo bem. Algumas dores precisam de dias, meses ou até muito mais tempo para serem elaboradas.
A proposta não é ignorar o que você sente, fingir que está tudo bem ou simplesmente “escolher” ficar alegre. É dar às suas emoções o tempo necessário para que elas se organizem novamente.
É permitir que você não tome decisões definitivas enquanto está vivendo emoções passageiras.
Davi passou por diversas situações difíceis e, ao escrever Salmos 30:5, sabia o que estava dizendo.
O choro existe. A noite existe. Mas a manhã também chega.
E talvez o grande milagre das 24 horas seja justamente esse: descobrir que, depois de uma noite difícil, você pode acordar diferente. Talvez o problema ainda esteja lá, mas você já não esteja mais no mesmo lugar emocional.
Não permita que as situações da vida tirem completamente a sua lucidez.
Ninguém, absolutamente ninguém, merece receber de você a sua pior versão apenas porque conseguiu despertar a sua pior emoção.
Quando puder, aquiete-se. Respire. Ore. Espere. E lembre-se: 24 horas.
Dê a si mesmo esse tempo.
Dione Alexsandra Ferreira é publicitária, pós-graduada em Comunicação Digital; Professora do Centro de Treinamento Bíblico Rhema; autora dos livros "Superação" e "Jornada para a Liberdade", publicados pela Editora Reinar e integrante do Departamento de Comunicação do Centro de Operações do Ministério Verbo da Vida.
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