A expressão bíblica “últimos dias”, presente tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, possui diferentes interpretações no campo escatológico. Entretanto, há pontos que recebem ampla concordância entre diversos teólogos, independentemente da linha escatológica adotada.
A escatologia pentecostal é plural, pois há diversidade de posições dentro do próprio movimento pentecostal. Contudo, no contexto brasileiro, a visão dispensacionalista, pré-tribulacionista e pré-milenista continua sendo majoritária. Ainda assim, no cenário global, o pentecostalismo apresenta interpretações mais amplas e diversificadas. A proposta deste texto, porém, é abordar especificamente a perspectiva pré-tribulacionista.
No Antigo Testamento, a expressão “nos últimos dias” aponta para o tempo em que o Senhor agiria de maneira decisiva na história humana (STAMPS, 1997, p. 1632), tanto para julgamento quanto para salvação.
No Novo Testamento, os últimos dias começam a se cumprir com a vinda de Cristo e com o derramamento inicial do Espírito Santo sobre a Igreja Primitiva (At 1.8; 2.1–4). Essa promessa não ficou restrita à era apostólica, como afirmam os cessacionistas. O poder do Espírito Santo e a atualidade dos dons espirituais permanecem para os nossos dias. O batismo no Espírito Santo continua sendo capacitação divina para a proclamação do evangelho (At 1.8).
As Escrituras também afirmam que, nos últimos dias, “alguns apostatarão da fé” (1Tm 4.1). Muitos intérpretes pré-tribulacionistas enfatizam fortemente os sinais de apostasia, embora alguns acabem minimizando a continuidade da atuação sobrenatural do Espírito Santo na Igreja contemporânea. Não são raras as acusações de exagero dirigidas aos dispensacionalistas/pré-tribulacionistas por causa do exagero ao pessimismo. Entretanto, tanto a crescente apostasia quanto a manifestação do poder do Espírito Santo são características dos últimos dias. Enquanto muitos se afastam da fé e são enganados por doutrinas heréticas, também existe um povo que continua experimentando a atualidade da ação do Espírito Santo.
Segundo STAMPS, os últimos dias “introduzem o reino de Deus com sua demonstração de pleno poder” (STAMPS, 1997, p. 1632). Por isso, o cristão pode manter uma postura de esperança diante da graça de Deus, que continua chamando pessoas ao arrependimento e à salvação. Há motivos para otimismo espiritual, pois vivemos na dispensação da atuação do Espírito Santo e da manifestação dos dons espirituais. Contudo, também há um aspecto sombrio, visto que muitos rejeitam a Cristo e são conduzidos por ensinos enganosos que os afastam da verdade do evangelho.
A Grande Tribulação será um período de julgamento sobre aqueles que rejeitaram o Salvador (LAHAYE; HINDSON, 2015, p. 99). Ainda assim, mesmo em meio ao juízo, a graça de Deus continuará se manifestando para salvar vidas. A ideia defendida por alguns representantes do dispensacionalismo clássico, de que o Espírito Santo seria completamente retirado da terra durante a Grande Tribulação, não encontra pleno respaldo bíblico e teológico. Muitos dispensacionalistas revisados reconhecem a continuidade da operação da graça divina nesse período.
A aparição das duas testemunhas em Ap 11.3–12 demonstra essa realidade. O próprio texto declara: “Darei poder às minhas duas testemunhas, e elas profetizarão...” (Ap 11.3). Isso evidencia que o poder do Espírito Santo continuará atuando mesmo durante a Grande Tribulação.
Portanto, a interpretação pentecostal dos últimos dias não deve ser marcada apenas por uma expectativa de juízo e apostasia, mas também pela esperança na contínua atuação do Espírito Santo. Enquanto muitos se afastam da fé, a Igreja continua sendo chamada a viver em santidade, proclamar o evangelho e manifestar o poder de Deus até a volta de Cristo.
Referências:
LAHAYE, Tim; HINDSON, Ed. 13 chaves para compreender o fim dos tempos. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2015.
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1997.
Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.
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