Quando se fala nas origens do movimento pentecostal, nomes como Charles Parham, William Seymour e Daniel Berg costumam receber grande destaque. No entanto, existe outro personagem cuja influência foi decisiva para a formação teológica do pentecostalismo clássico: William Howard Durham (1873–1912).
Embora menos conhecido entre muitos evangélicos brasileiros, seu legado continua presente em diversas igrejas pentecostais, especialmente nas Assembleias de Deus.
Durham nasceu nos Estados Unidos e exerceu o ministério pastoral em Chicago. Inicialmente ligado ao movimento de santidade, teve contato com o avivamento pentecostal que surgiu na Rua Azusa, em Los Angeles, no início do século XX. Após sua experiência pentecostal, tornou-se um dos principais divulgadores da nova mensagem, viajando, pregando e influenciando líderes que posteriormente ajudariam a expandir o movimento para diversas partes do mundo. Entretanto, a contribuição mais significativa de Durham não foi apenas evangelística, mas também teológica. Sua principal marca foi a formulação da chamada doutrina da “Obra Consumada do Calvário” (Finished Work). Na época, muitos pentecostais seguiam a tradição wesleyana de santidade, que ensinava uma sequência de três experiências distintas: conversão, santificação como segunda obra da graça e, posteriormente, o batismo no Espírito Santo.
Durham passou a defender uma compreensão diferente. Para ele, a santificação não deveria ser entendida como uma experiência instantânea e separada da conversão. Em sua visão, a obra redentora realizada por Cristo na cruz já fornecia tudo o que era necessário para a vida cristã. A santificação começava na conversão e continuava ao longo da caminhada do crente, em um processo permanente de crescimento espiritual.
Essa posição provocou intensos debates entre os primeiros pentecostais. Muitos líderes ligados à tradição de santidade rejeitaram suas ideias. Outros, porém, reconheceram nelas uma tentativa de enfatizar a suficiência da obra de Cristo e a centralidade da cruz na experiência cristã. O resultado foi uma das mais importantes discussões doutrinárias da história do pentecostalismo.
A influência de Durham alcançou diretamente diversos missionários e líderes que participaram da expansão mundial do movimento pentecostal. Entre aqueles que foram impactados por sua teologia estavam ministros que posteriormente contribuiriam para a formação das Assembleias de Deus em diferentes países. Por essa razão, muitos estudiosos consideram que a teologia assembleiana foi significativamente moldada por sua compreensão da santificação.
Isso não significa que as Assembleias de Deus adotaram integralmente todos os aspectos do pensamento de Durham. A tradição assembleiana desenvolveu características próprias ao longo do tempo, incorporando influências diversas. Ainda assim, a ideia de uma santificação progressiva, fundamentada na obra consumada de Cristo, tornou-se uma das marcas da identidade teológica de grande parte do pentecostalismo clássico.
A importância de Durham também pode ser percebida em sua tentativa de equilibrar experiência espiritual e reflexão doutrinária. O movimento pentecostal nasceu em meio a fortes manifestações espirituais, testemunhos e experiências de avivamento. Contudo, Durham compreendeu que a experiência cristã precisava estar fundamentada em uma sólida compreensão das Escrituras e da obra de Cristo.
Essa preocupação permanece relevante para a igreja contemporânea. Em uma época marcada por excessos emocionalistas de um lado e por um racionalismo frio de outro, a mensagem de Durham continua apontando para a necessidade de manter Cristo no centro da fé. O Espírito Santo não conduz a igreja para longe da cruz, mas sempre a conduz de volta à pessoa e à obra de Jesus.
Para os pentecostais do século XXI, recordar William H. Durham é lembrar que o crescimento espiritual não depende apenas de experiências extraordinárias, mas da contínua ação da graça de Deus na vida do crente. A santificação é uma jornada diária de transformação, fundamentada na obra perfeita realizada por Cristo no Calvário.
Mais de um século após sua morte, Durham continua sendo uma das figuras mais importantes da história pentecostal. Seu legado permanece vivo não apenas nos livros de história, mas também na teologia, na pregação e na espiritualidade de milhões de pentecostais ao redor do mundo. Conhecer sua trajetória é compreender melhor as raízes do movimento que se tornou uma das maiores forças do cristianismo contemporâneo.
Referência bibliográfica:
GONÇALVES, José. A glossolalia e a formação das Assembleias de Deus: um resgate histórico da soteriologia e pneumatologia do início do movimento pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2022.
Ediudson Fontes (@ediudsonfontes) é pastor auxiliar da Assembleia de Deus Cidade Santa (RJ), teólogo, pós-graduado em Ciências da Religião e mestrando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio. Escritor, professor de Teologia, casado com Caroline Fontes e pai de Calebe Fontes.
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