Um pouco de poesia pode nos equilibrar nestes tempos. Começo pelo Salmo 42:7, “Um abismo chama outro abismo ao rugir das tuas cachoeiras, todas as tuas ondas e vagalhões se abateram sobre mim”.
Cresci ouvindo sobre este Salmo. As aplicações sempre seguiam a direção que apontava para o acúmulo crescente de pecados em nossas práticas. Práticas essas que faziam cair nos tais abismos que chamavam outros abismos, numa queda sem fim. Assustador.
Porém, correndo cada vez mais riscos por tantos abismos que nos cercam, hoje estamos aqui, todos nós, indistintamente. Andamos diariamente por um Brasil que não se cansa de nos precipitar a novos abismos a cada dia, sem dó ou piedade. Mal começamos a compreender um escândalo já jogam outro em nossa cabeça. O peso vai ficando insustentável. Nossas pernas não dão conta, tropeçamos, caímos, então nos desesperamos... é mais um abismo.
Abismo atrás de abismo nos lembra o eco dos nossos gritos. Como nação estamos sentindo na alma os ecos de todos os tipos de sofrimento, são injustiças, cancelamentos, massacres de reputações, leis invertidas, abismos. Além de abismos, o salmista lança mão do barulho das cachoeiras, sons estrondosos que nos assustam, se você viu o volume que está nas cataratas de Iguaçu por conta das violentas chuvas, então dá para compreender melhor a poesia. O verso termina com ondas e vagalhões que se abatem sobre a fragilidade humana. Traduzindo: caos total.
Não controlamos abismos. Se cairmos neles, não tenha dúvida, é dor, sofrimento, massacre. Ande pelas ruas, pergunte, se relacione, o número de desesperados, de aflitos e angustiados, só cresce. E o Brasil, segue firme, sofrendo com abismo atrás de abismo. Não somos exclusivos, o mundo segue a mesma agenda, abismos.
Como fugir, se salvar e se livrar de tantos abismos? No verso 11 o poeta dá a dica, ele conversa com sua alma, “Por que estas abatida ó minha alma”, e na sequência responde, “Espera em Deus”. Somente Deus para nos livrar e, no caso de Deus, necessariamente Ele nem sempre nos livra do abismo, mas NO abismo.
Comecei com poesia, terminarei com poesia, num verso extremamente sensível, delicado e ao mesmo tempo forte, Guimarães Rosa nos deixou essa pérola: “Todo abismo é navegável com barquinho de papel”. A vida pode estar rude, e está, mas é possível confiar todas as nossas fragilidades e vulnerabilidades nas mãos dAquele que aquieta o mar, afinal, nossa fraqueza é nossa maior força quando focada em Cristo, porque barquinhos de papel não se arrebentam em abismos.
Carregamos em nós as fragilidades dos barquinhos de papel e, no papel frágil que somos, Cristo escreve a mensagem dEle. O mundo pode estar em queda livre de um abismo a outro, mas nós somos cartas para o mundo, escritas pelo Comandante que conduz nosso barquinho.
Edmilson Ferreira Mendes é escritor, pastor, teólogo, observador da vida.
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