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A murmuração e as sepulturas do desejo

Quando o homem se deixa ser guiado pela carne, será incapaz de ouvir a voz de Deus e muito menos de obedecê-lo.

fonte: Guiame, Getúlio Cidade

Atualizado: Quarta-feira, 10 Junho de 2026 as 9:05

(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

O capítulo 11 do livro de Números registra a primeira grande murmuração coletiva dos israelitas, ocorrida no primeiro ano de peregrinação pelo Sinai. Aquele era um povo de “dura cerviz”, como definido pelo Senhor, difícil de guiar e de liderar. Não foi a única vez em que murmuraram, mas essa queixa específica redundou em grande praga e morte.

O povo desejou comer carne e uma grande murmuração e lamento se espalhou pelo acampamento. Ao ouvi-los, Moisés sente o peso da pressão e cobrança sobre si, e apela para Deus. “Por que puseste sobre mim o encargo de todo este povo?”. A diferença aqui é que o povo murmura entre si e Moisés murmura apenas com Deus. O primeiro tipo de murmuração é pecado, pois espalha desânimo e insubmissão. O segundo tipo é uma oração e as Escrituras estão repletas de exemplos de homens e mulheres que apresentaram suas queixas apenas a Deus, especialmente nos Salmos.

O desejo por carne foi tão forte entre o povo que o Senhor resolveu atendê-los, provendo carne por um mês inteiro “até sair pelos narizes”. No entanto, junto com a carne, veio a consequência da obsessão do povo. Uma grande praga se alastrou e feriu a muitos, levando-os à morte. Por que um desejo comum seguido de murmuração, aparentemente irrelevante, teria acendido a ira divina e conduzido a um desfecho fatal?

Desejo obstinado

Poderia comparar a resposta de Deus em enviar carne de codorniz em abundância a um pai que cede a um filho irremediavelmente obstinado. Ele lhe concede o desejo por insistência, mas sabe que lhe será danoso. Depois de ter sua vontade satisfeita e expectativa frustrada, o filho compreende a resistência do pai em ceder ao pedido. Frequentemente, aprende isso da forma mais dolorosa e conclui que a relutância não passava de um zelo paternal. Nem tudo o que pedimos servirá para nosso bem; pelo contrário. 

Todavia, embora uma inferência legítima, esse não é o caso em questão. Somente é possível compreender a ira de Deus contra os israelitas, ao cobiçarem carne, recorrendo-se à língua original da Torá. A passagem diz que ali mesmo muitos pereceram do castigo. “Porque ali foi sepultado o povo que desejou outro alimento”. O verbo para “desejou” é mit’avim que significa desejar ardentemente. Não é um simples desejo, mas algo que sai do controle, de apelo totalmente carnal e sem limite.

Luxúria punida

O povo não sentiu apenas o desejo de comer carne, ignorando a provisão divina do maná, mas de se deixar levar por esse desejo, sem nenhuma continência. Qualquer desejo desse tipo é pecado, pois é a carne assumindo o controle do espírito. E quando o homem se deixa ser guiado pela carne, será incapaz de ouvir a voz de Deus e muito menos de obedecê-lo.

Esse foi o motivo do juízo em Kivrot HaTaa’vah, literalmente “sepulturas do desejo”. A palavra taa’vah ainda existe no hebraico moderno e se traduz por luxúria, o que denota bem a carnalidade e o total descontrole que tomou conta do povo naquela situação. Ela só ocorre cinco vezes na Bíblia hebraica e todas como menção a esse local, onde o Senhor cortou o mal pela raiz a fim de manter Israel um povo separado para si. A lição aqui é: nunca se deixe ser dominado por nenhum desejo carnal em detrimento de ouvir e seguir a voz do Espírito Santo, sob o risco de ser sepultado com ele.

“A inclinação da carne é morte, mas a inclinação do Espírito é vida e paz” (Romanos 8:6).

 

Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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