O livro de Rute envolve um roteiro de dor e perda, amor e compaixão, redenção e recompensa. É um drama envolvente, misterioso e, por que não?, de desfecho milagroso, quando o improvável acontece, não por acaso, mas por cuidado e zelo divinos.
Após perder o marido e seus dois filhos, Naomi resolve devolver suas noras viúvas — Rute e Orfa — para suas famílias. Rute, porém, se recusa a deixá-la e Naomi se vê atada a sua nora de corpo e alma, até a morte. As Escrituras ressaltam a bondade e compaixão de Rute pelo menos duas vezes, mas a tradição vai um pouco além e menciona a bondade de Rute para com sua sogra durante todos os anos em que viveu em Moabe.
Amor sacrificial
No entanto, não se fala nesses atos porque o ato de se apegar à sua sogra para deixar sua terra e imigrar para uma terra estrangeira, como viúva e sem perspectiva de outro casamento, teria ofuscado todos os demais. A decisão de se apegar a Naomi “até a morte” não era apenas mais um dos atos de bondade de Rute, mas um ato de amor sacrificial. Ela sabia que não havia perspectiva para seu futuro como viúva em Israel, um povo que tinha por lei não se misturar a outros povos.
Esse é o ato de alguém que considera a vida do outro superior a sua própria, impelido por amor e compaixão, que está disposto a render sua vida em favor desse outro. É este exato ato de Rute que toca profundamente o coração de Deus, pois foi o mesmo ato que Ele realizou para salvar um mundo perdido, sacrificando seu próprio Filho.
A bondade de Boaz
Ao chegarem a Belém, Rute sai em busca de alimento para si e Naomi, e vai aos campos de Boaz para colher trigo, cuja ceifa estava na alta temporada. A Torá determinava que os cantos dos campos não fossem ceifados a fim de permitir que os pobres e necessitados, como viúvas, órfãos e estrangeiros, colhessem para si.
Boaz era um homem notável por pertencer a uma linhagem nobre de Judá, bem como por sua bondade e senso de justiça entre o povo de Belém. É assim que ele trata Rute, uma viúva moabita, com generosidade. Ele não apenas permite que ela colha dos melhores feixes de trigo, mas a sacia com fartura de pão e água.
Esse contraste das Escrituras é notável, pois, diz a Torá que, quando Israel saiu do Egito, nenhum amonita ou moabita foi receber o povo com pão e água no caminho. Aqui, a bondade de Boaz é um emblema da bondade de Deus que nos trata com amor e generosidade a despeito de nosso egoísmo e maldade. Através de Boaz, Deus ensina como pagar o mal com o bem.
Sacrifício e bondade recompensados
O que Rute não sabia é que o dono daquele campo era parente próximo de seu falecido sogro Elimeleque e, segundo a lei, era o parente remidor, capaz de suscitar descendência para o falecido, a fim de que seu nome não fosse apagado de Judá. Ao ser instruída por Naomi, Rute insta Boaz a se casar consigo e cumprir seu papel de parente remidor, o que ele faz após se consultar com os anciãos e juízes da cidade.
A tradição ensina que os anciãos concluem que o casamento era lícito pela Torá, embora fosse proibido que amonitas e moabitas se casassem com israelitas. Tal proibição seria apenas para os homens de Amon e Moabe, uma vez que mulheres naquele tempo nunca saíam ao caminho para fornecer provisões a viajantes. E fora precisamente por causa dessa omissão que o Senhor os proibiu de entrar para a congregação de Israel.
Tanto Boaz quanto Rute eram pessoas íntegras e bondosas. O Senhor conhecia a sinceridade de Rute ao render sua vida em prol de sua sogra. Ele conhecia também a generosidade e sinceridade de Boaz ao remir seu parente para perpetuar seu nome em Israel. Todo amor e bondade semeados pelos dois seriam ricamente recompensados.
Dessa união, nasce Obed, pai de Ishai (Jessé), pai do rei Davi, de quem descende Yeshua, da tribo de Judá. Deus não somente inserira Rute na linhagem de Abraão, mesmo sendo uma estrangeira, mas lhe concedeu a dádiva de estar na ascendência direta do Rei Messias. O amor que “tudo sofre e tudo crê” nunca passa despercebido do Senhor.
Para saber mais, acesse https://www.aoliveiranatural.com.br/2026/05/22/pentecostes-e-o-livro-de-rute/
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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