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O paradoxo da sabedoria

A trajetória de Salomão mostra que sabedoria e conhecimento não substituem a obediência aos mandamentos de Deus.

fonte: Guiame, Getúlio Cidade

Atualizado: Quarta-feira, 19 Agosto de 2026 as 7:46

(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

A queda do rei Salomão — Shlomo Hamelech — é, sem dúvida, uma das passagens mais decepcionantes das Escrituras. O rei, cuja glória e esplendor marcaram o reino de Israel na História, foi também o mais sábio que já existiu. Entretanto, um descuido com sua sabedoria o levou à ruína. 

Dentre as leis para os reis de Israel, há três proibições específicas em Deuteronômio 17:14-17 que são:

Não adquirir para si grande número de cavalos para não permitir que o povo voltasse ao Egito para adquirir mais cavalos.

Não adquirir para si mulheres em grande número para que seu coração não se desviasse.

Não acumular para si grande quantidade de prata ou de ouro para não depender de riquezas nem ser corrompido por elas.

 

Tropeçando nos mandamentos

Quando estudamos a vida do rei Salomão, verificamos que a razão de sua queda foi infringir cada um desses mandamentos. A quantidade de cavalos que acumulou foi absurdamente grande para um exército que deveria ser formado basicamente pela infantaria a pé (1Reis 4:26). O mandamento de não acumular cavalos, além de não permitir que o povo voltasse ao Egito, requeria que o exército dependesse exclusivamente de Deus nas batalhas.  

Salomão também infringiu o segundo mandamento para os reis, não apenas juntando muitas mulheres para si, mas tomando-as dos povos dos quais o Senhor ordenara que os israelitas não entrassem em contato. Salomão teve setecentas princesas e trezentas concubinas que, em sua velhice, perverteram seu coração para seguir outros deuses (1Reis 11:2-4).  

O Talmude registra que, ao se deparar com esse mandamento, Salomão disse para si: “vou ajuntar muitas mulheres, mas não vou me desviar” (Sanhedrin 21b). Pois cria consigo que um rei podia ter muitas mulheres, desde que estivesse determinado em seu coração a não se desviar. Em vez de obedecer sem questionar o que fora ordenado, Salomão preferiu atribuir sua própria interpretação racional ao mandamento e caiu no engano de seu coração.

Ele infringiu também o terceiro mandamento, ao acumular para si grandes riquezas, ao ponto de todas as taças e objetos de seu palácio serem de ouro puro. “Nada era feito de prata porque considerava-se a prata de pouco valor nos dias de Salomão” (2Crônicas 9:20).

 

Arrogância intelectual

O ponto central do fim do reinado de Salomão infelizmente não foi sua sabedoria, mas seu orgulho, o que foi gerado, de modo paradoxal, exatamente por aquela virtude que lhe fora dada em abundância. A tradição mostra que ele tentou racionalizar os mandamentos; achava que poderia acumular cavalos, mulheres e riquezas sem cair no pecado alertado pela Torá de “deixar seu coração se elevar”.  

Essa história não termina aqui, pelo contrário, é aqui que começa, pois muitos, ao longo das eras, caíram pela mesma arrogância de se julgarem sábios demais ou racionais demais para cumprir cegamente um mandamento sem questioná-lo. Desde cedo, aprendemos com nossos pais que devemos obedecê-los sem questioná-los, pois, no fim das contas, eles nos dizem para fazer ou não fazer algo para nosso próprio bem. Com nosso Pai celestial não é diferente. Quando se confia, não é preciso entender para obedecer.

O comportamento de Salomão comprova que nunca se deve confiar no próprio raciocínio contra a ordem divina. É uma advertência contra a arrogância intelectual; nenhuma sabedoria permite reinterpretar os mandamentos. Salomão falhou justamente por refutá-los e confiar em sua sabedoria, e aprendeu de forma dolorosa que ela jamais substitui a obediência.

Para saber mais, acesse: https://www.aoliveiranatural.com.br/2026/08/14/o-paradoxo-da-sabedoria-e-a-queda-de-salomao/

 

Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Atravessando o deserto

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