No dia 26 de janeiro, após um enorme esforço de buscas pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) em Gaza, foi encontrado o corpo do último refém— Ran Gvili — que foi levado para casa, onde sua família finalmente pôde sepultá-lo. Os fatos que envolveram sua partida e seu retorno chamam a atenção e parecem apontar para a futura redenção da nação.
Ran foi um caso peculiar, juntamente com alguns reféns resgatados anteriormente. Em vez de ser entregue pelo Hamas que o sequestrou, foi achado pelas FDI, o que envolveu uma ação conjunta com as forças de segurança e de inteligência, com um grande aparato de equipamentos de alta tecnologia e um efetivo maciço de militares.
Pode parecer exagero na tentativa de se resgatar apenas um corpo, porém, tal esforço é plenamente justificável dentro da cultura judaica, na qual o sepultamento digno é um imperativo. Um corpo insepulto ou sepultado de modo indigno é tido por grande desonra e ignomínia, de acordo com Eclesiastes 6:3.
“O primeiro a sair e o último a retornar”
Ran Gvili era membro da unidade antiterrorista da Polícia de Israel. No dia 7 de outubro de 2023, ao ouvir que milhares de terroristas do Hamas haviam se infiltrado em Israel, Ran, mesmo com licença médica devido a um ferimento no ombro e prestes a passar por uma cirurgia, vestiu seu uniforme, pegou sua arma e munição, e seguiu direto para a cena de ação.
Várias pessoas que participavam do festival Nova, no Neguev, deram testemunho da coragem e bravura de Ran ao salvar inúmeras pessoas, colocando-as em uma rota de fuga segura dos terroristas. Ele sozinho lutou contra os invasores e matou dezesseis terroristas. Em seguida, Ran se interpôs entre o kibutz Alumim e os terroristas, impedindo que fosse invadido. Somente após sua munição acabar, ele sucumbiu aos ferimentos de tiros que recebera.
Seu corpo foi levado pelos terroristas para Gaza, onde permaneceu por 843 dias, sem que ninguém soubesse de seu paradeiro. Somente no último dia 26, após intensos esforços, seu corpo foi descoberto em Gaza e retornou para casa. Ran foi o último dos 251 reféns a voltar e, por isso, ficou conhecido como sendo “o primeiro a sair e o último a retornar”.
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Soldados das FDI trazem corpo do tenente Ran Gvili de Gaza para Israel. (Foto: Wikipedia)
Um sinal miraculoso
A descoberta do corpo de Ran que estava enterrado em Gaza revelou algo estarrecedor. Após mais de dois anos e três meses, seu corpo não fora decomposto e ele ainda estava com o mesmo uniforme policial que vestira na manhã fatídica do dia 7 de outubro. Alguns rabinos em Israel fizeram menção imediata a uma história incrível contida no Talmude (tratados Ta’anit 31a e Gittin 57a).
Após a batalha da cidade de Beitar, na Judeia, e da repressão esmagadora da revolta de Bar Kochba, em 136 d.C., os romanos recusaram permitir que os judeus sepultassem os milhares de mortos de Beitar. Apenas alguns anos mais tarde, o decreto foi suspenso e deu-se permissão para o sepultamento. Milagrosamente, os corpos não se decompuseram e puderam receber um sepultamento digno. Neste mesmo dia instituiu-se a bênção para “aquele que é bom e faz o bem”, elevando Deus em ação de graças por preservar os corpos a fim de terem um sepultamento digno.
O milagre parece ter se repetido na história de Israel, na morte de Ran, alguém louvado por todos que o conheciam por seu altruísmo, amor a Deus, amor a sua nação e ao próximo. Seus atos de heroísmo comprovaram isso, sacrificando sua vida por seus irmãos compatriotas. Yeshua ensinou que esta é a expressão maior de amor: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13).
Unidade e redenção
Após exaustivas buscas, os soldados das FDI foram tomados de grande comoção, bem como a nação sentiu um enorme alívio com o fim do drama e do fardo dos reféns, o que durou mais de dois anos. Muitos soldados choravam copiosamente no local e muitos deles se abraçaram como um só corpo, cantando Ani Ma’amin. Este é um cântico messiânico que fala da futura redenção de Israel. A letra diz: “Eu creio com fé completa na vinda do Messias. E, ainda que Ele demore, mesmo assim esperarei por Ele todos os dias até que venha”. Foi um canto profético para esse tempo.
Essa demonstração de fé e unidade não foi apenas entre os soldados das FDI. Houve demonstrações de enorme respeito por todo o povo, durante o cortejo fúnebre, e no ajuntamento na Praça dos Reféns, em Tel Aviv, bem como em várias partes do país, em silenciosa homenagem e de profundo reconhecimento para receber seu filho de volta.
Tal unidade é um símbolo profético do preparo da nação para receber o Messias. O sacrifício de Ran e o sinal miraculoso de sua morte apontam para isso. Sabemos que a redenção de Israel virá quando estiverem juntos como um só homem, debaixo de grande tribulação, clamando pela vinda de seu Redentor. Essa unidade em torno da dor, especialmente após os ataques de 7 de outubro, está mais forte do que nunca e aumentará até o fim.
Não há como olhar para a história de Ran, “o primeiro a sair e o último a retornar” e não lembrar das palavras de Yeshua de que “os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos”. Os judeus foram os primeiros a sair para a Grande Comissão e serão os últimos alcançados por ela, a entrarem no Reino de Deus, no dia quando, de Sião, vier o Libertador para desviar de Jacó as suas impiedades (Rm. 11:26).
Ran Gvili, além de herói de Israel, é um símbolo profético da redenção de sua nação. Que sua memória seja abençoada!
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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