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O clamor pela liberdade no Irã

Este é um povo duramente castigado que vem sendo oprimido há quase meio século, desde a Revolução Islâmica de 1979, quando os aiatolás derrubaram o regime do xá.

fonte: Guiame, Getúlio Cidade

Atualizado: Quarta-feira, 4 Fevereiro de 2026 as 2:26

Túmulo de Ester e Mordechai, no Irã. (Foto: Wikipédia)
Túmulo de Ester e Mordechai, no Irã. (Foto: Wikipédia)

Desde a guerra entre Irã e Israel, em junho do ano passado, houve um frágil cessar-fogo que soa mais como um intervalo entre rounds de uma luta livre. Ambos os países continuam se preparando para o que pode vir a ser um conflito decisivo. No Irã, a pressão não é apenas externa, mas também interna, o que pode levar a um colapso do regime no curto ou médio prazo.

Desde o conflito passado, o Irã tem tido apoio da China e da Rússia para se rearmar, especialmente com mísseis balísticos para serem usados contra Israel em um próximo ataque, o que cumpriria a promessa do regime dos aiatolás de “varrer Israel do mapa”. O efeito da guerra, por outro lado, fez com que a inflação da economia disparasse, tornando-se um fardo insuportável para o povo iraniano.

Este é um povo duramente castigado que vem sendo oprimido há quase meio século, desde a Revolução Islâmica de 1979, quando os aiatolás derrubaram o regime do xá. O resultado dessa insatisfação acumulada foi a manifestação direta do povo, em diversas cidades do país, desde o fim de dezembro, o que envolveu dezenas de milhares de manifestantes contrários ao regime que foram lutar por sua liberdade em todos os níveis.

Autêntico genocídio

A resposta do regime foi uma das mais repressivas da história contemporânea. Nos dias 8 e 9 de janeiro, o aiatolá Khamenei determinou à sua milícia paramilitar — Basij — a se contrapor atirando para matar seu próprio povo “sem compaixão”. O massacre foi enorme e as inteligências de Israel e dos EUA ainda estão trabalhando nas estimativas que estão na ordem de dezenas de milhares de assassinatos a sangue frio; cidadãos mortos cruelmente apenas por estarem protestando nas ruas contra o regime que os oprime.

As fontes do próprio governo admitiram que houve cerca de cinco mil mortos, aos quais chamou de terroristas, mas é óbvio que o número é muito superior. Parece que nem o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, em Pequim, passou perto disso; um autêntico genocídio.

O regime derrubou a internet do país, mas não antes de diversos vídeos serem transmitidos por cidadãos comuns nas redes sociais, comprovando seus crimes contra a humanidade. Algumas imagens chocantes mostram centenas de sacos pretos nos estacionamentos de diversos hospitais do país, aguardando serem recolhidos por parentes para serem sepultados.

Laços de amizade

A despeito do grande inimigo de Israel hoje ser o regime do Irã, cuja “cabeça da serpente” é o próprio aiatolá, segundo os próprios iranianos, há uma enorme estima e simpatia dos iranianos pelo povo judeu. Poucos sabem, mas Irã e Israel são povos que historicamente têm grandes laços de amizade entre si, apenas interrompida após a revolução dos aiatolás.

A revolução, porém, não tirou o afeto e a simpatia do povo persa por Israel. E a prova disso são as milhares de mensagens de apoio de contas de rede social de iranianos a Israel, inclusive durante a guerra do ano passado. Arrisco a afirmar que Netanyahu tem mais apoio entre o povo iraniano do que dentro de Israel. Basta ver a conta em persa do Instagram do Ministério das Relações Exteriores de Israel, com mais de dois milhões de seguidores de fala farsi e simpatizantes ao povo judeu.

Um rei gentio e amigo de Israel

Essa mostra de amizade e simpatia é recíproca por parte dos israelenses que têm o povo persa em alta consideração. O motivo é a eterna gratidão que nutrem por Ciro, rei da Pérsia antiga, que decretou o regresso dos judeus da diáspora para retornarem a Jerusalém e reconstruírem o Templo. Flávio Josefo afirma em sua obra Antiguidades Judaicas que Ciro, ao tomar conhecimento da profecia de Isaías a seu respeito, chamando-o pelo nome, escrita quase duzentos anos antes, ficou maravilhado e decidiu decretar o retorno dos judeus do exílio.

“Que digo de Ciro: É meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz, dizendo também a Jerusalém: Tu serás edificada; e ao templo: Tu serás fundado” (Isaías 44:28).

“Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá. Quem há entre vós, de todo o seu povo, seja seu Deus com ele, e suba a Jerusalém, que está em Judá, e edifique a casa do Senhor Deus de Israel (ele é o Deus) que está em Jerusalém” (Esdras 1:2,3).

Futuro promissor

A ligação histórica entre Israel e a Pérsia não se limita ao decreto de Ciro, mas ao reinado de Ester, uma judia que fez história no império persa, durante o qual seu povo foi livre do extermínio e prosperou em todas as províncias.

O monumento do túmulo da rainha Ester e seu primo Mordechai, duas figuras bíblicas proeminentes na história de Israel, está localizado na cidade de Hamadã, no Irã, é um dos poucos locais sagrados para os judeus fora de Israel e um dos maiores símbolos da amizade histórica entre judeus e persas.

Por esses laços históricos de união e afeto, os iranianos, em sua luta pela liberdade, têm apoio total e irrestrito dos judeus do mundo inteiro. O desejo de um povo livre da ditadura atual do Irã é compartilhado por todos os espectros sociais, políticos e religiosos dentro de Israel. Um Irã livre é um prenúncio de um futuro promissor para as duas nações e representa o reatar de uma amizade milenar. Esperamos que esse tempo chegue logo, b’ezrat HaShem.

 

Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: A casa edificada sobre a rocha e o método rabínico das parábolas

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