O dia 6 de janeiro é reconhecido pela tradição católica como sendo o Dia de Reis em memória aos magos do oriente. Aproveitando o ensejo dessa festividade, vamos examinar brevemente quem foram de fato esses magos que vieram saudar e presentar Jesus após seu nascimento.
Como escrevi no último artigo a respeito da origem do Natal, a data designada para a visita desses homens nobres também não é citada na Bíblia. A tradição simplesmente estabeleceu que eles levaram doze dias para completar sua jornada após o nascimento de Jesus. É nessa data que a Igreja Católica celebra a Epifania, termo grego para manifestação. Assim, dia 6 de janeiro teria sido a primeira manifestação de Jesus aos gentios, representados por esses magos.
Embora sua visita a Jesus esteja relatada no Evangelho de Mateus, ele não especifica data, nomes nem a quantidade dos visitantes. A escolha da data, seus nomes, a definição de que eram três e que seriam reis surgiram apenas em documentos da Idade Média. Nada disso é respaldado por Mateus. A única menção ao número três é em relação aos presentes trazidos por eles: ouro, incenso e mirra.
Quem eram os magos?
A palavra magos, no grego, singular de magoi (plural usado em Mateus), é definida por dicionários bíblicos como sendo o nome dado a caldeus, medos, persas e outros povos para homens que eram uma combinação de sacerdotes, médicos, astrólogos, astrônomos, videntes, intérpretes de sonhos etc. Detinham uma mescla de conhecimentos distintos, não apenas da ciência, como também de atividades místicas e ocultas.
Por exercerem atividades que lhes permitiam prever o futuro, ocupavam cargos importantes como conselheiros de reis, o que lhes davam um elevado status social em suas comunidades. Magos é uma palavra rara no Novo Testamento; aparece apenas nessa passagem de Mateus 2 para se referir a esses visitantes ilustres e em Atos 13, quando se faz referência a Elimas, aqui traduzido por mágico ou feiticeiro.
O sinal da estrela
Embora exercessem atividades ligadas ao ocultismo, os magoi que visitaram Yeshua tiveram de estudar as Escrituras para saber que havia uma estrela que serviria de sinal para o nascimento do Messias e Rei de Israel (Mt. 2:2). Ao afirmarem que seguiam esse sinal, fizeram referência à profecia milenar de Balaão a respeito de Israel.
Balaão fora contratado por Balaque para amaldiçoar Israel. Ao invés disso, fora obrigado por Deus a abençoá-lo: “Uma estrela procederá de Jacó e um cetro subirá de Israel” (Números 24:17). O interessante na narrativa de Mateus é que ele transcreve as palavras dos sábios como se a profecia de Balaão fosse de amplo conhecimento dos judeus. Realmente era para os que aguardavam a manifestação do Messias, o que não significa que todo Israel estivesse atentamente aguardando seu nascimento.
A estrela que apontava para a chegada do Rei Messias não deveria ser surpresa, mas foi necessário que gentios que diligentemente estudavam as profecias de Israel subissem a Jerusalém para despertar o povo adormecido, além da fúria de Herodes — um falso rei que nem judeu era (sua ascendência era edomita) — para dar conta da vinda do verdadeiro Rei de Israel.
Autêntica adoração
Embora não se conheça os mistérios e detalhes que envolveram a viagem dos magoi para visitarem o Filho de Deus encarnado, eles foram os primeiros a lhe prestarem honra, vindo de uma terra distante e trazendo dádivas valiosas. Até seus presentes foram proféticos: o ouro aponta para a realeza, o incenso para a divindade e a mirra para sua morte sacrificial.
A motivação clara de honrar a Deus nesses sábios gera um conflito com o poder mundano. Ao serem avisados, em sonho, que não deveriam regressar a Herodes, obedeceram imediatamente, partindo para sua terra. Diante de uma palavra divina, não se submeteram a um governante político nem temeram a homens, mas a Deus. A resposta assassina de Herodes, ao massacrar os bebês de Belém, contrasta duramente com a obediência daqueles homens.
Os que buscam a Deus genuinamente submetem-se a sua autoridade e não a poderes mundanos quando estes colidem com os mandamentos divinos. As práticas dos magoi não eram aprovadas por Deus, mas Ele enxergou sinceridade no desejo autêntico de honrar o nascimento de seu Filho, usando as profecias e uma estrela para guiá-los. Os sábios, a quem a tradição chama de reis, viajaram de longe para honrar o Rei dos reis e são um sinal profético para todo aquele que busca a Deus com um coração sincero.
Assim como usou uma estrela, o Senhor usará o que for necessário para guiar os sedentos pelo caminho até Ele, pois os que o buscam de todo coração o encontram (Jr. 29:13-14). Os sábios gentios, mencionados no mais judaico dos quatro Evangelhos, também nos ensinam que a verdadeira sabedoria culmina com autêntica adoração.
“E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram” (Mateus 2:11).
Getúlio Cidade é escritor, tradutor e hebraísta, autor de A Oliveira Natural: As Raízes Judaicas do Cristianismo e do blog www.aoliveiranatural.com.br.
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