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“Antissemitismo não encontra respaldo nas Escrituras”, afirma pastor e pesquisador

Em entrevista ao Guiame, Edmar Moreira fala sobre Israel, o avanço do antissemitismo, a relação entre judeus e cristãos e os desafios da Igreja em um mundo cada vez mais polarizado.

fonte: Guiame, Silas Anastácio

Atualizado: Quinta-feira, 18 Junho de 2026 as 3:03

(Foto: Edmar Moreira / IBC Sto André)
(Foto: Edmar Moreira / IBC Sto André)

O pastor Edmar Moreira atua como diretor de educação em uma das maiores igrejas batistas de Santo André (SP). A comunidade, que reúne cerca de 6.000 membros, tem se destacado pelo compromisso com a formação espiritual e educacional de seus membros.

Em entrevista exclusiva para a minha coluna no Guiame, o líder da Igreja Batista Central (IBC) compartilhou um pouco de sua trajetória ministerial, refletiu sobre os desafios da educação cristã na atualidade e destacou a importância de uma formação que una excelência acadêmica, compromisso bíblico e cuidado pastoral na formação das novas gerações.

Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Edmar Moreira desenvolve pesquisas nas áreas de educação, infância e formação cristã. Também integra o Grupo de Estudos e Pesquisa Infâncias, Cultura e História (GEPICH/CNPq), vinculado à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e aprofundou seus estudos em educação por meio de atividades acadêmicas na instituição entre 2019 e 2021.

(Foto: Edmar Moreira / IBC Sto André)

Além da experiência pastoral e educacional, Edmar Moreira possui formação em Teologia e Pedagogia, pós-graduação em Gestão Administrativa da Educação e mestrado em Ciência da Religião pelo Gordon-Conwell Theological Seminary, nos Estados Unidos, reunindo uma trajetória marcada pelo diálogo entre fé, ensino e serviço à igreja.

Acompanhe a entrevista:

Pastor Edmar, poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória ministerial e quem é você no cenário evangélico atual?

Minha trajetória ministerial é marcada pela proclamação do Evangelho, pela formação de líderes e pelo compromisso com a educação cristã. Tive o privilégio de servir como missionário na Argentina por dois anos e na Espanha por dois anos e meio. Experiências que ampliaram profundamente minha visão sobre a obra de Deus entre os povos.

Desenvolvi atividades acadêmicas nos Estados Unidos durante cinco anos, período em que realizei meu mestrado, e ministrei a Palavra de Deus em diversos países da América Latina. Em Londres, estive como gestor e pastor no processo de implantação de um centro educacional voltado para filhos de imigrantes, trabalho que exerci por aproximadamente dois anos e meio.

Mais recentemente, estive em Israel realizando pesquisas acadêmicas, o que me permitiu aprofundar o conhecimento sobre a história, a cultura e a realidade contemporânea do povo judeu e da Terra Santa. Ao longo das últimas três décadas, pastoreei quatro igrejas e, atualmente, sirvo como Pastor Ministerial da Igreja Batista Central em Santo André, além de atuar como escritor e editor-geral.

Acima de qualquer título ou função, porém, considero-me um servo de Cristo chamado para ensinar as Escrituras, cuidar de pessoas e contribuir para que a Igreja permaneça fiel à sua missão de anunciar o Evangelho e transformar vidas pelo poder de Deus.

(Foto: Edmar Moreira / IBC Sto André)

 

Recentemente, o senhor participou do encontro entre o cônsul de Israel e líderes evangélicos. Como interpreta essa aproximação histórica entre judeus e evangélicos?

Vejo essa aproximação como algo extremamente relevante e necessário em nosso tempo. Os cristãos reconhecem que sua fé está profundamente enraizada nas Escrituras e na história do povo de Israel. Por isso, iniciativas que promovem o diálogo e a cooperação entre judeus e evangélicos contribuem para o fortalecimento do respeito mútuo e para uma melhor compreensão de nossas raízes comuns.

Recentemente, tivemos a oportunidade de reconhecer o trabalho desenvolvido pelo cônsul-geral de Israel em São Paulo, Sr. Rafael Erdreich, cuja atuação foi marcada pelo fortalecimento dos laços históricos, culturais, acadêmicos e institucionais entre Israel e o Brasil. Ao longo de sua missão diplomática, testemunhamos esforços concretos para estimular a cooperação entre universidades, centros de pesquisa, instituições educacionais, lideranças religiosas e organizações da sociedade civil.

Creio que essa aproximação vai muito além das relações diplomáticas. Ela representa a oportunidade de construirmos pontes de entendimento em um mundo cada vez mais polarizado. Quando judeus e cristãos dialogam com respeito mútuo, preservando suas identidades e convicções, tornam-se capazes de cooperar em favor da paz, da liberdade religiosa, da educação e do bem comum.

Como pastor, educador e pesquisador, alegro-me com iniciativas que aproximam pessoas, instituições e nações. A amizade entre Israel e o Brasil, bem como entre judeus e cristãos, pode produzir frutos duradouros para as gerações futuras, fortalecendo valores que promovem a justiça, a cooperação e a esperança.

 

A igreja atual em que você exerce o ministério parece ter uma ligação especial com o povo judeu. Como essa relação se desenvolveu?

Nossa relação com o povo judeu nasceu do estudo das Escrituras e da compreensão do papel de Israel na história da redenção. Ao longo dos anos, essa convicção foi sendo aprofundada por meio do ensino bíblico, do diálogo com líderes judeus e do incentivo à oração pela paz de Jerusalém.

A Igreja Batista Central em Santo André também participa de iniciativas práticas de apoio ao povo judeu. Por meio do Projeto EZRA, colaboramos com o retorno de judeus à sua pátria histórica, contribuindo com ações de acolhimento e suporte a famílias que realizam sua aliyah para Israel. Entendemos que essa parceria expressa não apenas solidariedade, mas também o reconhecimento dos laços históricos e espirituais que unem cristãos e judeus.

Minha recente estadia em Israel para fins de pesquisa acadêmica reforçou ainda mais essa compreensão, permitindo um olhar mais próximo da realidade do país, de sua história e dos desafios enfrentados pelo povo judeu na atualidade.

(Foto: Edmar Moreira / IBC Sto André)

 

Muitos afirmam que os inimigos dos judeus também se levantam contra os cristãos. Como o senhor avalia essa realidade no contexto atual?

Ao longo da história, observamos que regimes totalitários, movimentos extremistas e ideologias antirreligiosas frequentemente perseguiram tanto judeus quanto cristãos. Embora existam diferenças teológicas e históricas significativas entre essas comunidades, ambas compartilham valores fundamentais relacionados à fé bíblica, à liberdade religiosa e à dignidade humana.

Atualmente, vemos crescer, em diversas partes do mundo, manifestações de intolerância religiosa, discursos de ódio e perseguições a grupos de fé. Isso exige vigilância e responsabilidade da nossa parte. Como cristãos, somos chamados a defender a liberdade de consciência, promover a paz e combater toda forma de discriminação sem jamais responder ao ódio com mais ódio.

A Igreja deve permanecer firme em seus princípios, mas igualmente comprometida com a construção de uma sociedade em que o respeito à dignidade humana e à liberdade religiosa sejam preservados para todos.

 

Algumas pesquisas apontam para o crescimento do islamismo e para o declínio da presença cristã em certas regiões. Como o senhor interpreta esse cenário?

Os dados mais recentes revelam transformações significativas no panorama religioso mundial. Estudos internacionais mostram que a participação percentual do cristianismo vem diminuindo em algumas regiões historicamente cristãs, especialmente na Europa Ocidental, enquanto a população muçulmana cresce impulsionada por fatores demográficos e migratórios.

Entretanto, acredito que o maior desafio da Igreja não seja simplesmente o crescimento de outras religiões, mas o avanço da secularização e o progressivo distanciamento dos valores bíblicos que moldaram a civilização ocidental. O cristianismo, por sua vez, continua crescendo de forma expressiva na África, na Ásia e na América Latina, demonstrando que o Evangelho permanece vivo e transformador.

Por isso, não devemos interpretar esses números com temor. A resposta da Igreja deve ser espiritual: fortalecer o discipulado, anunciar o Evangelho com fidelidade e viver de forma relevante diante das novas gerações. A missão que Cristo confiou à sua Igreja permanece inalterada.

 

Diante do crescimento do antissemitismo no cenário global, qual deve ser a postura dos evangélicos em relação ao povo judeu?

O crescimento do antissemitismo é uma realidade preocupante. Pesquisas internacionais recentes apontam um aumento expressivo de incidentes dessa natureza em várias partes do mundo, incluindo agressões físicas, ameaças, atos de vandalismo e discursos de ódio direcionados a comunidades judaicas. Levantamentos globais indicam que os índices de hostilidade contra judeus atingiram patamares que não eram observados há décadas.

Diante desse cenário, os evangélicos devem assumir uma postura clara e inequívoca contra qualquer forma de preconceito. O antissemitismo não encontra respaldo algum nas Escrituras e contraria frontalmente os princípios do Evangelho de Jesus Cristo.

Nossa postura deve ser marcada pelo respeito, pelo amor ao próximo e pela defesa intransigente da dignidade humana. Cabe-nos também buscar uma compreensão mais aprofundada da importância histórica do povo judeu para a fé cristã, promover o diálogo respeitoso e orar pela paz de Jerusalém, conforme nos ensina a Palavra de Deus.

Em tempos de crescente polarização, a Igreja é chamada a ser uma voz de reconciliação, de verdade e de esperança, testemunhando o amor de Cristo a todos os povos.

(Foto: Edmar Moreira / IBC Sto André)

 

Para concluir, qual mensagem o senhor gostaria de deixar aos nossos leitores?

Gostaria de dirigir uma palavra de esperança a todos os nossos leitores. Sejam eles cristãos ou judeus.

Vivemos dias marcados por conflitos, incertezas e profundas transformações culturais e espirituais. Em muitos lugares, o medo, a intolerância e a polarização têm tentado separar pessoas e comunidades que compartilham valores fundamentais relacionados à fé, à família, à justiça e à dignidade humana. Acredito, porém, que este é um tempo para construirmos pontes — e não muros; para cultivarmos o respeito e não a hostilidade; para buscarmos a paz e não o confronto.

Ao povo judeu, expresso meu respeito, minha gratidão e minhas orações. A história de Israel testemunha a fidelidade de Deus ao longo das gerações e a extraordinária capacidade desse povo de perseverar diante das adversidades. Oro para que haja paz sobre Jerusalém e segurança sobre todos aqueles que habitam a Terra de Israel.

Aos cristãos, deixo o encorajamento para que permaneçam firmes na fé, comprometidos com as Escrituras, com a oração e com o amor genuíno ao próximo. Em tempos de tanta confusão, a Igreja deve continuar sendo uma luz que aponta para a esperança, para a reconciliação e para os valores eternos do Reino de Deus.

Que todos nós, independentemente de nossas tradições e histórias, possamos trabalhar em favor da paz, da justiça, da liberdade religiosa e da dignidade humana. Que o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó nos conceda sabedoria para enfrentar os desafios do presente e esperança para construirmos um futuro melhor para as próximas gerações.

Que a paz do Senhor esteja sobre todos aqueles que amam a Deus, buscam a verdade e trabalham pela reconciliação entre os povos.

 

Silas Anastácio (@silasas15) é referência na promoção das relações Brasil-Israel. Escritor, palestrante e articulador, fortalece o diálogo entre lideranças, defende a liberdade religiosa e combate o antissemitismo, conectando universos cultural, diplomático e social.

* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Protestos anti-Israel em Goiânia têm queima de bandeiras e exibição de suásticas

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