Um importante nome no cenário religioso brasileiro, o Apóstolo Paulo de Tarso tem se dedicado intensamente à missão de aproximar judeus e cristãos por meio de seu ministério. Reconhecido por sua atuação firme e conciliadora, ele é o relator do Manifesto contra o antissemitismo, documento que vem conquistando ampla repercussão nacional.
O documento, assinado por líderes cristãos de oito Estados brasileiros, foi endereçado aos Presidentes do Senado, David Alcolumbre, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, além dos chefes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, à sociedade brasileira e à comunidade judaica.
O texto conta com a revisão de importantes referências jurídicas e políticas, como a Dra. Clarita Maia — especialista em assuntos internacionais e consultora legislativa sênior — e a Deputada Federal Greyce Elias, reforçando a relevância e a credibilidade da iniciativa.
1. APRESENTAÇÃO PESSOAL E DA CASA APOSTÓLICA
Para o leitor que ainda não o conhece: quem é o senhor e qual é a sua trajetória como líder cristão no Brasil?
Meu nome é Paulo de Tarso. Sou brasileiro, advogado de formação, e em 2000 deixei a carreira jurídica para me dedicar integralmente ao ministério pastoral. Em 2004 fui enviado ao ministério apostólico, com a responsabilidade de servir igrejas e denominações em diversas regiões do Brasil e também em outros países.
O que é a Casa Apostólica que o senhor dirige? Como ela surgiu e qual é a sua missão central?
A Casa Apostólica nasceu em 2014, dez anos depois de eu ter sido enviado ao ministério apostólico. Muitos líderes e igrejas, em vários estados, passaram a buscar minha cobertura e paternidade ministerial — uma forma de servir com o dom que recebi de Deus. Ao mesmo tempo, desde 2010 faço parte do Conselho Apostólico Brasileiro, um grupo de líderes nacionais.
Nossa missão é simples e ampla: em meio à enorme diversidade da igreja brasileira, ajudar cada liderança a se sentir útil e chamada a cumprir seu papel na proclamação dos valores do Reino de Deus.
Que tipo de lideranças fazem parte da Casa Apostólica e de que regiões do Brasil e do mundo elas vêm?
Algo muito especial aconteceu em 1º de maio de 2026. Líderes da Casa Apostólica de muitos estados do Brasil se reuniram com representantes dos Estados Unidos, Portugal, Espanha, Argentina, Chile e Israel. Nesse encontro, decidimos deixar de ser apenas um grupo de líderes diretamente ligados a mim como “pai ministerial” para nos tornarmos uma plataforma mais plural, que recebe entre nós outros líderes maduros de grandes igrejas e denominações, com trabalhos reconhecidos em nosso país e fora dele.
Esse movimento de amadurecimento e ampliação foi o que gerou o ambiente e a força espiritual e institucional que resultaram no Manifesto de 8 de julho em favor de Israel e do povo judeu.
Como se dá, na prática, o trabalho da Casa Apostólica com essas lideranças?
Estamos em transição de um modelo mais vertical para uma rede mais horizontal, plural e colaborativa. Continuamos apoiando pequenos ministérios e líderes em ascensão, mas também servimos como respaldo espiritual e moral para líderes cristãos que exercem funções públicas — legislativas e executivas — em cidades, estados e no âmbito federal.
Um dos nossos grandes objetivos é preparar jovens para o desafio de anunciar o Evangelho do Reino de Deus em todas as nações, apoiando iniciativas já existentes e criando novos programas de formação. Queremos que eles sejam “luzes brilhantes” em um tempo que, para nós, é de densas trevas morais e espirituais.
2. ORIGEM DO MANIFESTO
O que o levou, concretamente, a redigir e tornar público este Manifesto em apoio à Comunidade Judaica?
Entendo, diante de Deus, que o meu chamado sempre esteve ligado a consolar o povo judeu. Sou um não judeu, mas fui alcançado pela Palavra que o Deus Vivo entregou a Israel no Sinai e que, pela fidelidade desse povo, chegou até os “confins da Terra”, inclusive à minha família, no Brasil.
Há anos oro, prego, escrevo e uso minhas redes para defender Israel e o povo judeu. Mas os acontecimentos recentes me mostraram que isso não era mais suficiente. Percebi que precisava agir de maneira mais clara, pública, responsável e juridicamente adequada: ser uma voz que confessa o nosso pecado histórico de omissão diante desta nova onda antissemita, antijudaica e antissionista que se levanta no mundo.
Estou convencido de que, se o ódio contra os judeus não for contido, os cristãos serão os próximos. Diante disso, não posso me calar.
Houve algum episódio específico após 7 de outubro de 2023 que funcionou como ponto de virada?
Sim. O 7 de outubro, em pleno Simchat Torá, foi decisivo. Em um dia em que Israel celebrava a alegria pela Palavra que recebeu do Eterno e com a qual abençoou todas as nações, o povo foi atacado covardemente — novamente com o apoio declarado do regime iraniano e por meio do Hamas. Para mim, aquilo foi uma nova Shoá, um grito que ecoa a promessa de “Nunca Mais” feita pela geração dos meus pais e avós.
Desde então intensifiquei minhas ações: orando, ensinando, consolando israelenses em Israel e judeus no Brasil. Em 2025, mesmo depois de adiamentos por causa da guerra, liderei uma viagem a Israel organizada pela agência Terra Santa, dirigida pelo judeu Ricardo Caro. Fomos mais para consolar e orar do que para fazer turismo. Gosto de dizer que vou a Israel para ver minha família: tenho uma filha adotiva judia que vive no Kibutz Yagur e já me deu três netos.
Nessas viagens, levo grupos de evangélicos e católicos e procuro ensinar sobre o Deus de Israel e o povo da Palavra — o povo judeu. Tudo isso convergiu para a necessidade de um manifesto público.
Como foi o processo de construção do texto? Quem participou?
Fui designado como relator do Manifesto porque as lideranças que o assinam comigo conhecem meu chamado em relação à Casa de Israel. Porém, o texto ganhou grande solidez jurídica e política com a contribuição da Dra. Clarita Maia e da deputada federal Greyce Elias, que subscreveu o documento conosco.
Nosso alvo comum era criar um ponto de partida sério para discussão, ensino e formação de consciência — não apenas uma declaração de simpatia, mas um marco que dê fundamentos para apoiar o povo judeu e resistir às ondas de ódio que temos visto.
3. CONFISSÃO HISTÓRICA E ARREPENDIMENTO
Por que o senhor considerou essencial começar com uma confissão histórica e um pedido de perdão?
Porque a história é clara: durante séculos, em diferentes segmentos cristãos — católicos e protestantes —, o povo judeu foi perseguido, expulso e morto. Muitas vezes, quando os judeus viam a cruz, viam também perseguição e morte.
Algo, porém, mudou com o renascimento de Israel em 1948 e, de forma especial, com a reunificação de Jerusalém em 1967. Muitos cristãos começaram a perceber que boa parte do ensino teológico tradicional, carregado de antissemitismo, era incompatível com a própria Bíblia.
A chamada “teologia da substituição”, que afirma que Deus teria rejeitado Israel e colocado a igreja em seu lugar, é, a meu ver, uma das estratégias mais diabólicas da história cristã. Ela ignora que os próprios textos sagrados dos cristãos afirmam que os judeus são os “ramos naturais” da oliveira e que Deus jamais rejeitou o seu povo.
Mesmo assim, cristãos alemães e de muitos outros países foram coniventes com o nazismo. Não reagimos com a força e na hora em que deveríamos, e seis milhões de judeus foram assassinados. Dizer “Nunca Mais” implica, antes, confessar onde erramos.
Quando o senhor afirma que “não honramos plenamente o compromisso do ‘Nunca Mais’”, a quem está se referindo?
Refiro-me à humanidade como um todo. Haverá, segundo cremos, um juízo para as nações que trataram o povo judeu com desprezo e violência. Nós, brasileiros, fazemos parte desta geração que assiste a ameaças explícitas de aniquilação contra Israel — vindas de aiatolás e de grupos como Hamas, Hezbollah, Houthis e outros — e, muitas vezes, permanecemos em silêncio.
Esse silêncio nos coloca em uma posição moralmente muito perigosa.
O que significa, na prática, esse arrependimento? Que mudança é inadiável?
Primeiro, significa rever profundamente nossa teologia e nossa cultura eclesiástica. Queremos formar grupos de estudo, inserir esses temas em escolas bíblicas e seminários, revisar materiais e sermões, para que o conteúdo deste Manifesto se torne conhecido e produza uma mudança de perspectiva.
Não se trata apenas de repetir que “prosperarão os que amam Jerusalém”. Trata-se de amar quem Deus ama. Interceder por Israel e pelo povo judeu é, para nós, uma expressão de amizade e aliança espiritual, não de interesse utilitário.
4. ANTISSEMITISMO HOJE: DIAGNÓSTICO E RESPOSTA
Como o senhor enxerga o crescimento do antissemitismo no Brasil e no mundo?
Cremos que este crescimento foi anunciado nas Escrituras, mas isso não diminui nossa responsabilidade. Cada pessoa precisa escolher de que lado estará na história. Eu escolho estar do lado de Deus, da verdade e da justiça — e isso, para mim, inclui defender o povo judeu e o direito de Israel existir em segurança.
Onde o senhor vê o risco do “silêncio, da indiferença e da falsa neutralidade” entre cristãos?
Quando nos calamos, tornamo-nos cúmplices de sangue inocente. A história nos mostra o que aconteceu em países que se calaram diante da perseguição aos judeus. Não quero que a minha geração repita esse erro.
Qual é a fronteira entre crítica política legítima a Israel e antissemitismo disfarçado?
As pessoas são livres para ter opiniões políticas sobre qualquer governo, inclusive o de Israel. O problema começa quando a crítica a políticas específicas se transforma em negação do direito de Israel existir, ou em justificativa para massacres e ódio gratuito contra judeus como judeus.
Israel é uma sociedade plural, com forte debate interno. O que não é aceitável é usar isso como pretexto para apoiar ou relativizar atentados contra civis, no Brasil ou em qualquer lugar, por causa de sua identidade judaica.
5. TEOLOGIA, BÍBLIA E REJEIÇÃO DA “TEOLOGIA DA SUBSTITUIÇÃO”
Como se formou sua convicção de que a “teologia da substituição” é diabólica e antibíblica?
Ao longo dos anos, percebi que muitos hinos, sermões e livros cristãos afirmavam, explicitamente ou não, que “nós somos o verdadeiro Israel”, em oposição ao povo judeu. Isso tornou-se tão comum que passou a ser visto como normal.
Estudar a Bíblia com seriedade e olhar para a história nos obrigou a encarar isso como pecado. Veneramos figuras como Martinho Lutero por sua contribuição para que a Bíblia estivesse acessível a todos, mas também precisamos reconhecer que seus escritos violentamente antijudaicos foram usados séculos depois pelo nazismo. Católicos têm o peso de séculos de antissemitismo institucional; protestantes, o de uma teologia e de líderes que alimentaram o ódio.
Confrontar isso não é mérito pessoal; é apenas o mínimo para quem diz amar a Deus e sua Palavra.
Que mudanças concretas o senhor pretende promover em sermões e materiais de ensino?
Na prática, isso já está em curso. Ensinamos que toda a Escritura é verdade e que ela não autoriza o antissemitismo, o antijudaísmo nem o antissionismo. Ao mesmo tempo, enfrentamos outro desvio recente: o de tentar “judaizar” não judeus, como se fosse necessário “virar judeu” para ser amado por Deus.
Como explicaria a um leitor judeu a importância de Israel e do povo judeu na sua fé cristã?
Para nós, o centro da fé cristã é um rabino judeu, da tribo de Judá, descendente de David HaMelech, que ensinou a Torá em sua essência mais profunda e enviou seus discípulos não apenas à diáspora judaica, mas também aos povos distantes — como nós, nos confins da Terra.
Um profeta disse que “o conhecimento do Eterno encherá a Terra como as águas cobrem o mar”. Foi por meio do povo judeu que esse conhecimento chegou a nós. Por isso podemos chamar o Eterno de “Avinu”, ainda que não sejamos filhos naturais de Israel.
Amamos o povo judeu e o Estado de Israel porque lemos nos profetas que Deus trata Israel como filhos — com firmeza, mas sem abandoná-los — e abençoa aqueles que abençoam a descendência de Abraão. Para nós, isso é uma questão de fidelidade ao próprio Deus.
Na segunda parte da entrevista, o Apóstolo Paulo de Tarso fala sobre o direito de Israel à segurança, os compromissos assumidos pela Casa Apostólica, o papel do Brasil diante do conflito no Oriente Médio e deixa uma mensagem final aos cristãos e à comunidade judaica.
Silas Anastácio (@silasas15) é referência na promoção das relações Brasil-Israel. Escritor, palestrante e articulador, fortalece o diálogo entre lideranças, defende a liberdade religiosa e combate o antissemitismo, conectando universos cultural, diplomático e social.
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