Celia Parnes preside a Federação Israelita do Estado de São Paulo em um período marcado por desafios para a comunidade judaica e para a sociedade global. Com atuação nas áreas social, institucional e pública, ela se consolidou como uma das principais vozes no combate ao antissemitismo e na defesa da democracia no Brasil. Atualmente, também ocupa o cargo de secretária-geral da CONIB.
Nesta entrevista que concedeu à minha coluna no Guiame, Celia fala sobre os 78 anos de Israel, os impactos ainda presentes dos ataques de 7 de outubro, o avanço da intolerância e a importância da educação e da memória da Shoá para as novas gerações.
À frente da Federação, que celebra 80 anos em 2026, ela também destaca o papel do diálogo entre judeus e evangélicos na construção de uma sociedade mais humana, respeitosa e comprometida com a paz.
Confira a entrevista completa com Celia Parnes sobre os desafios atuais da comunidade judaica, o combate ao antissemitismo e a construção de pontes de diálogo em meio à polarização global.
Em 2026, Israel celebra 78 anos de independência. Na sua visão, qual é o significado histórico e espiritual da existência do Estado de Israel para o povo judeu que acompanha de perto a história bíblica?
Israel representa muito mais do que um país para o povo judeu. Representa a reconstrução de uma história depois de séculos de perseguições, expulsões e sofrimento.
Para quem acompanha a Bíblia, Israel também tem um significado espiritual muito forte. É a terra onde aconteceram fatos que marcaram não só a história judaica, mas a história da humanidade.
E existe algo muito simbólico no fato de Israel ter sido criado poucos anos depois do Holocausto. Depois de uma tragédia tão cruel, o povo judeu conseguiu reconstruir sua vida, sua esperança e seu futuro.
O mundo tem assistido a um crescimento preocupante do antissemitismo. Como a senhora avalia esse cenário atual e quais sinais mais preocupam as lideranças judaicas hoje?
O que mais preocupa hoje é perceber como certos discursos de ódio estão começando a parecer normais em alguns ambientes.
Muitas vezes o antissemitismo aparece disfarçado de discurso político, de mentira espalhada nas redes sociais ou de ataques injustos contra judeus e contra Israel.
Também preocupa muito a velocidade com que a desinformação circula, principalmente entre os jovens.
A história mostra que quando o preconceito cresce contra os judeus, normalmente isso também revela um problema maior dentro da própria sociedade: mais intolerância, mais radicalização e menos diálogo.
Os ataques de 7 de outubro de 2023 deixaram marcas profundas em Israel e nas comunidades judaicas ao redor do mundo. Quais reflexos desse trauma ainda permanecem presentes quase três anos depois?
O trauma do 7 de outubro continua muito presente até hoje.
Muitas famílias ainda convivem com perdas irreparáveis, traumas emocionais e a dor causada pela violência daqueles ataques.
Mas talvez uma das dores mais profundas tenha sido ver pessoas relativizando ou até justificando atos terroristas tão brutais.
Isso abalou muito a comunidade judaica no mundo inteiro, especialmente os jovens, que passaram a se sentir mais inseguros e, muitas vezes, até isolados.
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Em meio à guerra no Oriente Médio, muitas narrativas conflitantes circulam nas redes sociais e na imprensa. Como o diálogo e a informação responsável podem ajudar a combater a desinformação e o extremismo?
Hoje as redes sociais fazem com que muitas pessoas formem opinião a partir de vídeos curtos, frases de efeito e informações sem contexto.
Por isso, o diálogo e a informação responsável são tão importantes.
Nenhum conflito sério pode ser entendido de forma simples ou através de discursos que transformam povos inteiros em inimigos.
Combater a desinformação exige responsabilidade da imprensa, das lideranças e também das próprias pessoas, que precisam aprender a checar informações e ouvir diferentes lados.
A paz só pode existir onde existe verdade, humanidade e capacidade de diálogo.
A Federação completa 80 anos em 2026. Quais foram as principais contribuições da instituição para a preservação da vida judaica e da democracia ao longo dessas décadas?
Ao longo desses 80 anos, a Federação ajudou a fortalecer a vida judaica no Brasil e também teve um papel importante na defesa da democracia, da liberdade religiosa e do combate ao preconceito.
A instituição sempre trabalhou para preservar a memória, apoiar ações sociais, fortalecer a educação, a cultura e aproximar a comunidade judaica da sociedade brasileira.
Hoje, seguimos trabalhando para construir uma Federação cada vez mais moderna, preparada e conectada aos desafios do nosso tempo.
Em um momento em que cresce a desinformação e até a negação do Holocausto em diferentes partes do mundo, qual é a importância da educação e da preservação da memória da Shoá para as novas gerações?
Lembrar o Holocausto não é importante apenas para os judeus. É importante para toda a humanidade.
A Shoá mostrou até onde o ódio, a intolerância e a desumanização podem chegar quando as pessoas começam a aceitar o preconceito como algo normal.
Por isso, ensinar as novas gerações sobre essa história é uma forma de proteger o futuro.
Memória não é apenas olhar para trás. É impedir que os mesmos erros se repitam.
O diálogo entre judeus e evangélicos tem se fortalecido nos últimos anos. Na sua avaliação, quais valores unem essas comunidades e como essa aproximação pode contribuir para uma sociedade mais humana e tolerante?
Judeus e evangélicos compartilham muitos valores importantes, como a defesa da vida, da família, da fé, da liberdade religiosa e da solidariedade.
Também existe uma ligação espiritual muito forte através da Bíblia e das raízes judaicas do cristianismo.
Essa aproximação ajuda a construir respeito, amizade e diálogo em um mundo cada vez mais dividido e polarizado.
Quando diferentes comunidades conseguem caminhar juntas com respeito e empatia, toda a sociedade ganha.
Qual mensagem a senhora gostaria de deixar para o público evangélico brasileiro neste momento de tantos desafios globais, especialmente em relação à defesa da paz, da liberdade religiosa e do combate ao ódio?
Gostaria de deixar uma mensagem de gratidão pelo apoio, pelo diálogo e pela parceria construída ao longo dos anos.
Vivemos um momento de muita intolerância, radicalização e divisão no mundo inteiro. Por isso, é cada vez mais importante que pessoas de fé se unam na defesa da dignidade humana, da liberdade religiosa, da democracia e da paz.
O combate ao ódio não é responsabilidade de apenas um grupo. É um compromisso de toda a sociedade.
Que possamos continuar construindo pontes, fortalecendo o respeito mútuo e mostrando que a convivência é sempre mais forte do que a intolerância.
Silas Anastácio é fundador do Ministério Davar, evangelista e expositor bíblico com sólida atuação há mais de uma década em temas relacionados ao Estado de Israel e à comunidade judaica. Também desempenha papel estratégico nos bastidores da mídia evangélica, contribuindo para a articulação e divulgação de conteúdos que fortalecem os valores da fé cristã.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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