“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens.” Colossenses 3:23
Existe uma pergunta que muitas vezes fazemos sobre o nosso trabalho: “O que eu ganho com aquilo que faço?” Existe, porém, uma pergunta ainda mais profunda: “Para quem estou fazendo aquilo que faço?”
A resposta pode transformar completamente a maneira como enxergamos nossa profissão.
Para o cristão, trabalhar não deveria ser apenas uma maneira de receber um salário, construir uma carreira ou alcançar reconhecimento. O trabalho também pode ser um lugar de serviço, propósito e entrega. A própria Escritura nos ensina que tudo aquilo que fazemos pode ser realizado para a glória de Deus: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (BÍBLIA SAGRADA, 2016, 1Co 10:31).
Essa expressão me toca profundamente. Porque Deus não é glorificado apenas nas grandes coisas. Porque Deus não é glorificado apenas nas grandes coisas.
Ele também pode ser glorificado no cotidiano. Na segunda-feira pela manhã.
Na porta que abrimos para começar mais um dia de trabalho.
Na tarefa aparentemente simples. No atendimento que ninguém viu.
Na decisão correta tomada quando seria mais fácil escolher o caminho contrário. Na palavra cuidadosa. Na responsabilidade assumida.
Na pessoa tratada com dignidade.
Deus também pode ser glorificado no ordinário.
Talvez tenhamos aprendido a imaginar chamado apenas como algo extraordinário. Como se servir a Deus significasse necessariamente estar em um púlpito, em uma igreja ou realizando algo que pudesse ser visto por muitas pessoas.
Mas nem todos fomos chamados para estar atrás de um púlpito.
Alguns foram chamados para hospitais.
Outros para escolas, empresas, consultórios, universidades, laboratórios, tribunais, escritórios, comércios ou para o cuidado do próprio lar.
Os caminhos são diferentes. Os talentos são diferentes.
As profissões são diferentes.
Mas existe algo que pode permanecer igual: a quem entregamos aquilo que fazemos.
Paulo escreve: “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (BÍBLIA SAGRADA, 2016, Cl 3:23).
Trabalhar “como ao Senhor” muda a perspectiva.
Porque passamos a compreender que existe um olhar acima do nosso.
Há dias em que ninguém percebe o esforço.
Ninguém reconhece a dedicação.
Ninguém agradece.
Ninguém vê aquela tarefa feita com cuidado, aquela escuta que ultrapassou alguns minutos, aquela decisão difícil, aquela mão estendida ou aquela palavra que talvez tenha mudado o dia de alguém.
Mas Deus vê.
E talvez essa seja uma das maiores mudanças que a fé pode produzir na nossa relação com o trabalho: deixamos de trabalhar apenas para sermos vistos pelos homens e passamos a trabalhar sabendo que Deus vê.
Isso muda tudo.
A excelência deixa de ser apenas uma busca por reconhecimento e pode se tornar uma forma de gratidão.
O conhecimento deixa de ser apenas conhecimento e se transforma em instrumento.
O talento deixa de ser apenas talento e se transforma em responsabilidade.
O cuidado deixa de ser apenas uma obrigação profissional e pode se transformar em serviço.
Keller (2014) discute justamente a dimensão do trabalho como parte da vocação humana, mostrando que o trabalho pode ser compreendido como uma forma de servir ao próximo e participar do cuidado de Deus pelo mundo. Essa compreensão nos convida a olhar para nossa profissão não apenas pelo que ela nos proporciona, mas também pelo bem que podemos realizar através dela.
Como psicóloga hospitalar, essa compreensão ganha, para mim, uma dimensão ainda mais profunda.
Dentro de uma UTI, somos constantemente colocados diante da fragilidade humana.
Ali, encontramos pessoas atravessando o medo, a dor, a incerteza e, algumas vezes, diante da própria finitude.
Encontramos familiares tentando encontrar forças enquanto aguardam notícias.
Encontramos profissionais que cuidam diariamente de outras vidas e que também carregam seus próprios cansaços.
E encontramos pessoas.
Sempre pessoas.
Antes do diagnóstico, existe uma história.
Antes do prontuário, existe uma vida.
Antes da doença, existe alguém que possui vínculos, memórias, medos, desejos e uma história que não pode ser resumida a uma condição clínica.
É nesse cenário que compreendo ainda mais profundamente que cuidar é uma responsabilidade que ultrapassa o exercício de uma profissão.
Minha formação em Psicologia me oferece conhecimento e instrumentos para compreender o sofrimento humano.
Minha profissão me ensina a escutar.
A observar.
A acolher.
A intervir.
Mas minha fé me lembra diariamente de algo ainda mais profundo:
cada vida possui valor.
E talvez honrar a Deus através da nossa profissão seja justamente colocar aquilo que aprendemos a serviço daquilo que Ele nos confiou.
Não significa transformar nosso ambiente profissional em um púlpito.
Significa transformar nossa postura em testemunho.
Porque podemos falar de Deus sem necessariamente pronunciar Seu nome.
Podemos falar através da honestidade.
Da responsabilidade.
Da excelência.
Da compaixão.
Da humildade.
Da maneira como tratamos alguém que não pode nos oferecer absolutamente nada em troca.
Da forma como nos comportamos quando ninguém está olhando.
Existe um tipo de testemunho que não depende de discursos.
Existe uma pregação que acontece através da maneira como vivemos.
Wright (2012) ressalta a importância da formação do caráter cristão e da maneira como a fé se expressa concretamente na vida cotidiana. Afinal, não basta dizer aquilo em que acreditamos; nossas escolhas, atitudes e maneira de viver também revelam aquilo que ocupa o nosso coração.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que um cristão possa fazer diante da própria profissão seja:
“Se Deus me deu esse talento, esse conhecimento e essa oportunidade, como posso usar tudo isso para glorificá-Lo?”
A resposta será diferente para cada pessoa.
Mas o princípio permanece.
Não precisamos abandonar nossa profissão para servir a Deus.
Podemos servir a Deus através dela.
Um médico pode glorificar a Deus cuidando de uma vida.
Uma professora pode glorificar a Deus formando pessoas.
Uma psicóloga pode glorificar a Deus acolhendo o sofrimento humano.
Um advogado pode glorificar a Deus buscando justiça.
Um empresário pode glorificar a Deus conduzindo seus negócios com honestidade.
Um profissional da limpeza pode glorificar a Deus realizando seu trabalho com dignidade e excelência.
Uma mãe pode glorificar a Deus cuidando dos seus filhos.
Um trabalhador pode glorificar a Deus fazendo com dedicação aquilo que foi colocado em suas mãos.
O lugar pode mudar.
A profissão pode mudar.
Os talentos podem mudar.
Mas o propósito permanece: viver para a glória de Deus.
Talvez devêssemos parar de perguntar apenas:
“Quanto eu ganho com o meu trabalho?”
E começar a perguntar:
“O que Deus pode fazer através do meu trabalho?”
Essa mudança de perspectiva é profunda.
Porque talento utilizado apenas para construir o nosso próprio nome pode alimentar o ego.
Mas talento colocado nas mãos de Deus pode se transformar em serviço.
Nossa profissão pode ser uma oportunidade de deixar marcas que ultrapassam aquilo que aparece em um currículo.
Podemos construir carreiras.
Mas também podemos cuidar de pessoas.
Podemos conquistar títulos.
Mas também podemos oferecer esperança.
Podemos alcançar reconhecimento.
Mas também podemos servir silenciosamente.
Podemos buscar sucesso.
Mas também podemos buscar propósito.
E talvez um dos maiores privilégios de um cristão seja viver de maneira que sua profissão conte uma história sobre o Deus em quem acredita.
Não necessariamente com discursos.
Mas com a vida.
Com excelência.
Com amor.
Com integridade.
Com responsabilidade.
Com humanidade.
Porque, quando ninguém está olhando, ainda existe Alguém que vê.
Quando nosso nome não é mencionado, Deus continua conhecendo nossa fidelidade.
Quando não recebemos aplausos, aquilo que fazemos com amor não perde seu valor.
Quando o reconhecimento não vem, podemos continuar sabendo para quem estamos trabalhando.
“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens” (BÍBLIA SAGRADA, 2016, Cl 3:23).
Que nossos diplomas nunca sejam apenas títulos.
Que nossos conhecimentos nunca sejam utilizados apenas para nossa própria ascensão.
Que nossas mãos não sejam usadas somente para construir o nosso próprio nome.
Que nossos talentos sejam sementes.
Que nosso conhecimento seja serviço.
Que nossa profissão seja testemunho.
Que nossa excelência seja gratidão.
Que nossa presença seja cuidado.
E que, por onde passarmos, alguém possa encontrar um pouco daquilo que existe em nós porque um dia decidimos entregar tudo a Ele.
Talvez nem sempre possamos falar.
Talvez nem sempre seja necessário.
Mas podemos viver.
Podemos servir.
Podemos cuidar.
Podemos trabalhar com integridade.
Podemos escolher a excelência quando ninguém está olhando.
Podemos tratar pessoas com dignidade.
Podemos fazer aquilo que está em nossas mãos com todo o coração.
Porque quando entendemos para quem trabalhamos, até aquilo que fazemos todos os dias pode se transformar em adoração.
E talvez, ao final de cada jornada, possamos fazer uma oração simples:
“Senhor, tudo o que tenho vem de Ti. Que aquilo que faço também possa Te honrar.”
Que nossas profissões sejam pequenos altares.
Que nossos dons sejam instrumentos.
Que nosso trabalho seja serviço.
E que nossa vida profissional também possa glorificar o nome daquele que nos deu a capacidade de fazer aquilo que fazemos.
Eis-me aqui, Senhor. Usa também o meu trabalho para a Tua glória.
Referências
BÍBLIA SAGRADA. Nova Versão Transformadora. São Paulo: Mundo Cristão, 2016.
KELLER, Timothy. Todo bom trabalho: em busca de sentido e propósito no trabalho. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2014.
WRIGHT, N. T. Eu creio. E agora? Por que o caráter cristão é importante? Viçosa, MG: Ultimato, 2012.
Vanessa Bentes é psicóloga e teóloga, pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-SP, Saúde Mental pelo Sírio-Libanês e Psicologia Hospitalar pelo Albert Einstein. É autora do livro “Corações Voltados para Deus” e “Inclinados para Sua Vontade”, publicados pela Reino Editorial.
* O conteúdo do texto acima é de colaboração voluntária, seu teor é de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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