‘Estamos sofrendo’, diz pastor à beira de cova com corpos de membros de sua igreja

O pastor Ezekiel Dachomo tem denunciado os ataques contra cristãos na Nigéria e feito apelos à comunidade internacional por proteção e ajuda.

fonte: Guiame, com informações do TruthNigeria

Atualizado: Segunda-feira, 28 Setembro de 2026 as 1:47

Pastor Ezekiel Dachomo, desolado, sentado à beira da cova com os corpos de três membros de sua igreja. (Captura de tela/YouTube/No Weapon Ministries)
Pastor Ezekiel Dachomo, desolado, sentado à beira da cova com os corpos de três membros de sua igreja. (Captura de tela/YouTube/No Weapon Ministries)

O pastor Ezekiel Dachomo voltou a enfrentar uma das cenas mais dolorosas de seu ministério: sepultar membros de sua própria igreja mortos em meio à onda de ataques contra comunidades cristãs no estado de Plateau, na Nigéria.

Na sexta-feira (25), o líder cristão estava sentado, desolado, à beira de uma sepultura coletiva em Gassa, onde três vítimas de um ataque ocorrido na noite anterior seriam enterradas. Ali, o pastor voltou a denunciar a violência contra os cristãos e clamou por ajuda da comunidade internacional.

 
 
 
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Segundo o TruthNigeria, homens armados atacaram as comunidades cristãs de Chit e Gassa, na região de Barkin Ladi, cerca de 24 a 32 quilômetros ao sul de Jos, capital de Plateau, por volta das 22h30 de quinta-feira (24).

Três moradores foram mortos em Gassa: Barnabas Gyang Jack, de 23 anos, casado e pai de um filho; Manasseh Luka Mushwer, de 26 anos; e Ishaya Pam Dung, de 47 anos, casado e pai de dois filhos. Dung era líder comunitário e responsável pelo grupo de vigilância civil da aldeia.

O pastor, que tem denunciado publicamente a violência sofrida por cristãos na região, acompanhou o sepultamento dos fiéis.

O que ele ainda não sabia naquele momento era que novos ataques deixariam outras nove pessoas mortas nas comunidades próximas nas 24 horas seguintes, segundo informações reunidas pelo veículo local.

‘Mataram três de nossos irmãos’

Solomon Dalyop, líder da comunidade Berom, afirmou que homens armados identificados por moradores como militantes de língua fulani atacaram postos de vigilância civil em Chit e Gassa.

Em Chit, os vigilantes conseguiram repelir os invasores. Em Gassa, porém, três homens foram mortos.

“Na noite passada, eles vieram novamente e conseguiram matar três de nossos irmãos”, declarou Dalyop durante o sepultamento.

Segundo ele, ataques anteriores já haviam deixado pelo menos 50 mortos na região ao longo de setembro.

Entre as vítimas estava outro pastor, morto junto com um funcionário da igreja quando seguia para o culto no domingo (20).

O líder cristão foi sepultado na sexta-feira em Mararabar Kantoma, na região de Mangu, no mesmo dia em que Dachomo enterrava as três vítimas de Gassa.

‘Os cristãos não são livres’

Diante dos corpos que seriam sepultados, Dachomo gravou uma mensagem denunciando a situação enfrentada pelos cristãos na Nigéria e pedindo atenção internacional para a violência.

Ele fez um apelo ao presidente dos EUA, Donald Trump, para que continue dando visibilidade à perseguição contra os cristãos no país e pressionando por medidas para protegê-los.

O pastor contou que, horas antes, estava acompanhando um discurso internacional e orando, sem imaginar que logo precisaria enterrar integrantes de sua própria igreja.

“Eu estava ouvindo atentamente seu discurso e orando por você, sem saber que hoje alguns dos meus membros seriam trazidos [mortos]”, declarou.

Ao mostrar uma das vítimas, Dachomo relatou a brutalidade do ataque. Segundo ele, o homem havia sido decapitado e teve o crânio gravemente mutilado. O próprio pastor afirmou que precisou recompor o corpo antes do sepultamento.

“Eu tive que amarrar a cabeça, juntar o cérebro e colocar tudo no lugar”, contou.

Em seguida, o líder cristão voltou a denunciar o que considera perseguição sistemática aos seguidores de Jesus no país.

“Os cristãos não são livres. Estamos sofrendo”, afirmou.

Dachomo também criticou o governo nigeriano por, segundo ele, não denunciar internacionalmente a violência contra os cristãos.

“Meu governo não falou sobre a perseguição aos cristãos, sobre o genocídio na Nigéria”, declarou.

Apesar da brutalidade que acabara de testemunhar, Dachomo encerrou sua mensagem pedindo misericórdia inclusive para os responsáveis pela violência.

“Estamos pedindo que Deus tenha misericórdia de cada um de nós. [...] Quando digo cada um, incluo até os terroristas. Que Deus tenha misericórdia da vida deles”, afirmou.

Violência continuou durante os sepultamentos

Mesmo enquanto famílias enterravam seus mortos, novos ataques foram registrados.

De acordo com líderes locais ouvidos pelo TruthNigeria, duas pessoas foram mortas em ataques separados nas comunidades de Rubung e Federe, próximas à divisa entre Barkin Ladi e Jos East.

Horas depois, homens armados invadiram residências na mesma localidade onde o pastor havia sido sepultado e mataram outras duas pessoas.

Na manhã seguinte, por volta das 11 horas, outro ataque atingiu trabalhadores de mineração artesanal em Lajam, deixando cinco mortos.

Entre as vítimas estava um soldado recém-incorporado ao Exército nigeriano que havia retornado à aldeia para visitar sua família, segundo Patience Sandah, representante do governador de Plateau em Barkin Ladi.

Comunidades haviam recebido alertas

Dalyop afirmou que havia informações prévias sobre a possibilidade de novos ataques e questionou a atuação das forças de segurança.

“Não foi um ataque surpresa”, declarou o líder comunitário, afirmando que as autoridades haviam sido alertadas sobre a movimentação de homens armados na região.

Ele também pediu uma investigação sobre a resposta das forças de segurança e fez acusações contra integrantes das forças militares. As alegações não foram confirmadas de forma independente.

O governador de Plateau, Caleb Mutfwang, condenou os ataques e afirmou que os órgãos de segurança estavam tomando medidas para localizar os responsáveis e impedir novas ocorrências.

No caso do ataque contra os mineradores em Lajam, integrantes da força militar Operation Enduring Peace e agentes do Departamento de Serviços de Estado responderam à ocorrência, mas, segundo autoridades locais, os invasores já haviam fugido quando as equipes chegaram.

Mais de mil mulheres protestam

A morte dos três homens em Gassa também provocou uma manifestação de mulheres da comunidade.

Na manhã de sexta-feira, antes do sepultamento, mais de mil mulheres ocuparam uma rodovia em Jos e bloquearam acessos à região por mais de três horas, segundo o TruthNigeria.

Durante o protesto, elas criticaram a incapacidade das forças de segurança de impedir os ataques.

Líderes comunitários posteriormente convenceram as manifestantes a liberar a estrada para que representantes locais pudessem conversar com autoridades militares.

Uma delegação da Operation Enduring Peace e integrantes de uma força-tarefa militar chegaram à região e participaram de uma reunião a portas fechadas com representantes das mulheres e dos jovens. Os militares não deram declarações à imprensa no local.

Pastor pede oração pelos soldados

Apesar das críticas à resposta de integrantes das forças de segurança, Dachomo pediu aos cristãos que não condenassem todo o Exército nigeriano.

“Estou pedindo a todos os meus membros que apoiem os soldados do Exército nigeriano, que estejam ao lado deles”, afirmou o pastor.

Ele reconheceu que acredita haver integrantes das forças de segurança que agem de maneira inadequada, mas pediu oração pelos militares e voltou a defender que a comunidade internacional dê atenção à violência enfrentada pelos cristãos no país.

A região central da Nigéria, conhecida como Middle Belt, enfrenta há anos ataques envolvendo comunidades agrícolas, grupos armados e disputas por território e recursos.

Lideranças cristãs e organizações que acompanham a perseguição religiosa afirmam que parte da violência apresenta também um componente religioso, especialmente quando comunidades predominantemente cristãs são atacadas por militantes islamistas.

Para Dachomo, porém, a violência se traduz em rostos conhecidos. Mais uma vez, o pastor precisou acompanhar famílias de sua comunidade até uma sepultura coletiva enquanto novos ataques continuavam ocorrendo nas proximidades.

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