O conflito entre o exército e as forças rebeldes no Sudão causaram a pior crise humanitária dos últimos anos.
Entre 60 mil e 400 mil pessoas já foram mortas desde o início da guerra civil. Além disso, entre 12 milhões e 14 milhões de pessoas foram obrigadas a fugir da violência e estão deslocadas.
O conflito ainda intensificou a fome e o colapso econômico. Cerca de 20 milhões de sudaneses enfrentam fome severa.
A guerra causou sofrimento principalmente na população civil. Entre os grupos mais vulneráveis estão os cristãos, junto com mulheres e crianças — frequentemente alvo de ataques sexuais violentos ou recrutadas como crianças-soldado.
"Cristãos no meio dessa volatilidade costumam ser os últimos na fila", explicou Ryan Brown, CEO da Portas Abertas dos Estados Unidos.
"Se houver algum tipo de ajuda a ser disponibilizada, muito raramente ela seria fornecida aos cristãos. Se houver algum tipo de refúgio seguro que está sendo concedido contra toda a violência, cristãos muitas vezes não são bem-vindos”.
O Sudão ocupa o 4° lugar da Lista Mundial da Perseguição 2026 da Portas Abertas de países mais difíceis para ser cristão. Segundo a missão, os ataques aos crentes no país aumentaram durante o conflito.
"Historicamente, a perseguição se concentrava nas áreas rurais. Isso não é mais o caso. Hoje é muito comum por todo o país, incluindo áreas urbanas que antes serviam como refúgios seguros para cristãos”, observou Brown.
Igrejas saqueadas e confiscadas
Mais de 160 igrejas foram danificadas ou destruídas desde o início da guerra, de acordo com o Departamento de Estado dos EUA.
Templos foram saqueadas, confiscadas ou transformadas em quartéis militares e depósitos de armas por grupos armados.
Na capital Cartum, combatentes do grupo paramilitar RSF (Forças de Apoio Rápido) invadiram a Igreja dos Mártires durante uma reunião de oração e agrediram os cristãos presentes.
"Eles quebraram as portas e começaram a bater em todo mundo lá dentro", disse Safein Nazer, um diácono da igreja, à CBN News.
O líder disse que os combatentes roubaram objetos de valor, cavaram túmulos no cemitério da congregação em busca de ouro e tentaram sequestrar as meninas que viviam no orfanato da igreja, algumas com apenas 11 anos de idade.
“Eu os confrontei. Um deles me acertou pelas costas e atirou na minha perna”, relatou."Eles exigiram um dos nossos veículos porque queriam levar as órfãs. Graças a Deus o carro não ligou e não puderam levar as meninas”.
Nazer testemunhou que sua fé foi fortalecida em meio às dificuldades: "Deus estava presente em meio à guerra e ao sofrimento. Ele fortaleceu nossa fé”.
Perseguição no Sudão
Segundo a CBN News, tanto o exército sudanês quanto as forças das RSF foram acusados de atacar igrejas e apreender propriedades religiosas.
A crise humanitária no Sudão é resultado do golpe militar de 2021 e da guerra civil iniciada em 2023, conforme a Portas Abertas.
Desde então, o governo restabeleceu líderes opressores, retomou políticas cruéis de “moralidade” e tem utilizado leis islâmicas para justificar conversões forçadas e punições físicas. Como consequência, isso anulou os avanços na liberdade religiosa conquistados após a queda do regime opressivo de al-Bashir em 2021.
O conflito também deixou um vazio de poder, que tem sido aproveitado por milícias dos dois lados, que perseguem cristãos sem medo de punição.
Igrejas já foram bombardeadas, invadidas e até usadas como base por grupos armados. Além disso, cristãos sofrem forte discriminação na Justiça, no trabalho e nas escolas.
Convertidos do islamismo vivem com medo o tempo todo, enfrentando isolamento, violência e até rejeição da própria família.
Igrejas também têm sido fechadas à força, impedidas de se registrar e até destruídas. Além disso, líderes religiosos e cristãos estrangeiros têm sido presos injustamente com cada vez mais frequência em meio ao conflito.