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Entre o "eu" e o "me"

Enquanto o “eu” busca controlar, o “me” se abre para receber aquilo que não pode produzir sozinho.

fonte: Guiame, Clarice Ebert

Atualizado: Sexta-feira, 29 Maio de 2026 as 11:09

(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

O “eu” é identidade e fronteira, onde se reconhece os talentos, a história, a singularidade. Sente, pensa, planeja, decide, age. Cheio de intencionalidades calcula ganhos, protege interesses, cobra direitos, lançando-se sobre as situações como quem quer moldá-las à própria imagem. Quando contrariado, se defende, ataca, se justifica, retira afeto. O outro, então, deixa de ser mistério e passa a ser meio.

O “eu”, numa postura individualista se vê como o deus e salvador de si mesmo, fixando sua identidade na autorreferência, autotranscedência e autossuficiência. Como metáfora, numa alusão às aventuras do Barão de Münchhausen, seria como o sujeito afundando em areia movediça que acredita bastar puxar-se pelos próprios cabelos, numa tentativa absurda de se salvar usando os próprios recursos. O esforço apenas piora a situação, quanto mais luta, mais se enterra. Age como se autossuficiência fosse redenção.

Diferente do “eu”, o “me” tem como função originária receber e desvendar o mistério de ter sido amado primeiro. Brota a contemplação da vida que chega de forma inesperada e inimaginada, independentemente da intenção. Algo “me” ama e “me” acontece sem previsão, sem mérito, sem domínio, sem performance. Entre o céu e a terra, entre causas e efeitos, algo escapa ao império do “eu”.

O “me” nos devolve à humildade do encontro. Ele lembra que não somos ilhas, nem autores únicos da própria sustentação. Somos atravessados por eventos de graça, tocados, ajudados, salvos. Abre-se um espaço para o mistério da essência na existência. A vida floresce quando o individualismo cede espaço à interdependência, quando reconhecemos que precisamos de algo maior do que nós mesmos.

A modalidade que adquire a experiência de identidade do “eu” é ativa e do “me” é passiva, receptiva. O “me” não anula o “eu”, cura a sua onipotência. Assim deixamos de viver como quem precisa se salvar sozinho e passamos a viver como quem se abre para ser alcançado pela vida. Esta que continuamente está chegando em renovadas misericórdias a cada amanhecer.

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Texto de Carlos José Hernández (psiquiatra argentino, doutor em medicina) e Clarice Ebert (psicóloga - CRP08-14-038, terapeuta familiar e de casais e mestre em teologia).

 

Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Membro e docente de EIRENE do Brasil.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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