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Tudo que não inclua amor pelo inimigo faz parte de um esforço bélico

O chamado para o cuidado da vida não é a extinção dos mundos alheios, mas é fazer as pazes, inclusive com o mundo inimigo.

fonte: Guiame, Clarice Ebert

Atualizado: Sexta-feira, 3 Julho de 2026 as 12:09

(Foto: Velizar Ivanov / Unsplash)
(Foto: Velizar Ivanov / Unsplash)

O individualismo carrega uma ideia distorcida de que para se ter paz, o caminho seria enxergar-se como o único mundo a ser valorizado e preservado. Os outros não importam e são vistos como inimigos da paz. No entanto, o chamado para o cuidado da vida não é a extinção dos mundos alheios, mas é fazer as pazes, inclusive com o mundo inimigo.

Tudo que não inclua amor pelo inimigo faz parte de um esforço bélico. Isso convida a um deslocamento profundo do olhar. A violência não começa apenas nos atos extremos, mas também nas pequenas recusas de reconhecer o outro como alguém digno de presença e sentido.

A experiência humana é atravessada por modos de relação: podemos nos fechar na defesa, organizando o mundo a partir da ameaça, ou nos abrir ao encontro, mesmo quando há dor.

Quando o outro é percebido apenas como ameaça, nossa consciência se fecha, e passamos a viver em estado de resistência. O “inimigo”, nesse sentido, não é somente alguém externo, mas também aquilo que não conseguimos integrar, aquilo que nos fere e que tentamos afastar sem elaboração. Assim, o “inimigo” não é apenas aquele que nos feriu, mas aquele que nossa consciência rejeita.

O amor não se reduz a trocas ou a respostas merecidas. Ele se manifesta como doação que excede as condições. Amar o inimigo não significa concordar ou permitir abusos, negar a dor e aceitar injustiças, mas recusar-se a reduzir o outro àquilo que nos feriu ou a aprisionar o outro e a própria vida dentro de uma lógica de reatividade. É um gesto interior que interrompe a lógica da equivalência do “olho por olho, dente por dente”, da retaliação, da dívida, e cria um espaço novo de sentido, onde o rosto do outro passa ser um espaço sagrado.

Assim, onde não há amor, entendido como essa abertura que não aprisiona o outro, instala-se uma forma sutil de guerra: um endurecimento, uma divisão. Amar o inimigo é, antes de tudo, um movimento de liberdade interior que desarma o conflito dentro de nós e possibilita outras formas de presença no mundo.

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Carlos Jose Hernández (psiquiatra, doutor em medicina) e Clarice Ebert (formada em psicologia, terapeuta família e de casal, mestre em teologia).

 

Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Membro e docente de EIRENE do Brasil.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

Leia o artigo anterior: Escutar para além do que se vê!

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