A chegada de Jesus Cristo à terra inaugura um novo modo de perceber: a escuta. Até então, os relatos humanos se apoiavam no que se podia ver. Jesus, porém, desloca o olhar para aquilo que não se mostra aos olhos. Amar os inimigos, por exemplo, nasce da escuta, não da visão.
Antes de Jesus, a humanidade entregava seu olhar ao visível no mundo. Moisés é o ápice desse paradigma. Formado pelo Egito, viu o poder que o ameaçava e fugiu. Somente no deserto a sua escuta despertou e encontrou sua missão. Jesus, ao aprender a ouvir o Pai, encarna e desperta uma escuta do humano a partir da experiência da própria humanidade.
Onde antes o homem olhava a mulher para julgá la e para subjugar-lhe ao seu desejo, agora aprende a escutá la e a comungar com ela. Jesus conversa com uma prostituta e aceita o derramar de seu perfume. Conversa com uma estrangeira e lhe oferece a água da vida. Aceita as provisões da mulher rica e a inclui em sua missão nas peregrinações. Se revela vivo à uma mulher e lhe confere a missão de anunciar a ressurreição.
Onde antes os adultos viam as crianças como inconvenientes, agora aprendem a escutá-las como quem tem algo a revelar. Jesus as chama para o centro, para o colo, e acolhe a sua postura interior, de quem sabe que precisa do pai.
Jesus inaugura a escuta. Escutou para além do que via e nos convida a escutar também.
Paulo, aceitou o convite para escutar, mas não foi fácil. Precisou desaprender o olhar herdado do Egito e da Grécia. Sua experiência em três naufrágios e uma noite à deriva no mar abriram nele o espaço da escuta, permitindo-lhe abandonar tudo o que havia aprendido pela visão.
Hoje, a sociedade do espetáculo reafirma o olhar: o que parece ser é celebrado, mesmo sem raiz, consistência ou essência. Confunde-se ver com compreender e ser.
Contudo, a escuta ultrapassa o visível. Escutar o corpo, a alma, o outro e o Mistério revela dimensões que o olhar não alcança. Não envolve só ouvir sons, é ouvir essência. A visão pode bloquear a escuta. A fé, porém, nasce justamente do invisível.
A fé é a essência do invisível!
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Texto de Carlos José Hernández (psiquiatra argentino, doutor em medicina) e Clarice Ebert (psicóloga - CRP08-14-038, terapeuta familiar e de casais e mestre em teologia).
Clarice Ebert (@clariceebert) é psicóloga (CRP0814038), Terapeuta Familiar, Mestre em Teologia, Professora, Palestrante, Escritora. Sócia do Instituto Phileo de Psicologia, onde atua como profissional da psicologia em atendimentos presenciais e online (individual, de casal e de família). Membro e docente de EIRENE do Brasil.
* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.
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