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As crises da mediação profética: Uma análise vocacional em Jeremias

Como Jeremias transcende o arquétipo de mero porta-voz do Senhor para se tornar paradigmático caso de místico, internalizada como “fogo arfante”.

fonte: Guiame, Daniel Ramos

Atualizado: Quinta-feira, 22 Janeiro de 2026 as 2:57

(Imagem ilustrativa gerada por IA)
(Imagem ilustrativa gerada por IA)

Amados irmãos, a paz do Senhor. Este artigo analisa a dimensão psicológica e espiritual da crise vocacional do profeta Jeremias, tal como expressa em textos selecionados de sua obra (Jr 6:10-14; 7:13, 24-26; 12:1-4; 20:7-18).

Partindo de uma leitura hermenêutica que considera o contexto histórico de cerco e decadência de Judá, o estudo investiga a tensão dialética entre a compulsão divina para profetizar e a rejeição sistemática do auditório.

O objetivo é elucidar como a figura de Jeremias transcende o arquétipo do mero porta-voz para tornar-se um paradigmático caso de sofrimento, onde a palavra de YHWH, internalizada como "fogo ardente" (Jr 20:9), gera uma crise identitária profunda.

Conclui-se que a experiência “jeremiana” oferece uma teologia singular do profetismo, centrada não no sucesso da mensagem, mas na fidelidade ao chamado, mesmo no âmago do fracasso aparente.

1. Introdução: O Profeta em Contexto de Colapso

O livro de Jeremias situa-se no crepúsculo do reino de Judá, em um período marcado pela agressão babilônica, instabilidade política e decadência religiosa. A missão de Jeremias, portanto, desenrola-se em um cenário de urgência e condenação iminente. Diferentemente de Isaías, cujo ministério contemplava um "resto" que retornaria, Jeremias foi chamado para pregar a um povo cujo endurecimento era, em certa medida, já predito (Jr 7:27). Esta premissa define a natureza paradoxal de seu chamado: ser a voz de Deus para ouvidos que se recusam a ouvir. Este artigo propõe-se a dissecar a crise vocacional decorrente deste paradoxo, examinando os lamentos do profeta como janelas para a compreensão da psicologia profética e da relação agonística entre o mensageiro, a mensagem e seu destinatário.

2. A Dialética da Palavra: Compulsão Divina e Rejeição Humana

O cerne da crise de Jeremias reside na natureza coerciva e interiorizada da palavra profética. Em Jeremias 20:9, o profeta declara sua tentativa de calar-se, apenas para descobrir que a mensagem se tornara um "fogo ardente, encerrado nos meus ossos". Esta metáfora visceral denota uma internalização traumática da palavra de YHWH. Não se trata mais de um discurso externo, mas de uma força que consome a subjetividade do profeta a partir de dentro. A vocação transforma-se em uma compulsão inescapável, onde a autonomia do "eu" é dissolvida pelo imperativo divino.

Paralelamente, a reação do povo é sistematicamente caracterizada pela insensibilidade. A expressão "ouvidos incircuncisos" (Jr 6:10) aponta para uma barreira orgânica e espiritual à comunicação. A circuncisão, sinal da aliança, é hermeneuticamente transferida para a capacidade de escuta, revelando que a quebra da aliança é, antes de tudo, uma falha na percepção. A mensagem de juízo, longe de gerar arrependimento, torna-se "coisa vergonhosa" (Jr 6:10), um objeto de desprezo social. Este divórcio entre a intenção divina (o arrependimento) e o efeito real (o endurecimento) gera o primeiro nível da frustração jeremiana.

3. A Crises em Três Atos: Da Frustração à Desesperança

A angústia do profeta pode ser mapeada em uma progressão dramática, conforme os textos sugerem:

3.1. A Frustração Ministerial (Jeremias 6:10-14 e 7:13, 24-26)

Nesta fase inicial, a frustração de Jeremias está vinculada ao fracasso da sua missão. Deus lembra ao profeta que falou "insistentemente" (Jr 7:13), mas o povo "não ouviu e não atendeu" (Jr 7:24-26). Aqui, o sofrimento deriva da ineficácia e da constatação de que a mensagem não produz o fruto esperado. O profeta vê-se como um agricultor que lança sementes em solo rochoso, cumprindo um ritual fadado ao insucesso.

3.2. A Questão Teodiceana (Jeremias 12:1-4)

A crise aprofunda-se, evoluindo da frustração ministerial para um questionamento da justiça divina. Jeremias clama: "Por que prosperam os ímpios?" (Jr 12:1). Ele não questiona apenas a surdez do povo, mas a aparente incongruência na administração da justiça de YHWH. O sucesso dos maus e o sofrimento do justo (neste caso, o próprio profeta) colocam em xeque a lógica retributiva da aliança. A sua pregação, que anuncia juízo, parece não afetar os ímpios, enquanto ele, o fiel, padece. É um momento de profunda crise de fé, onde a ordem cósmica parece desmoronar.

3.3. A Desesperança Existencial (Jeremias 20:7-18)

O ápice da crise é atingido em Jeremias 20. O profeta acusa Deus de tê-lo "seduzido" (ou "violado", dependendo da tradução do verbo pittîtanī). Esta é uma das mais fortes acusações de um profeta contra o Deus que serve. A relação dialética atinge seu paroxismo: o mesmo Deus que é o objeto de sua devoção é percebido como seu agressor. A palavra, outrora "fogo ardente", agora é motivo de "opróbrio e de vergonha" (Jr 20:8). A crise não é mais ministerial ou teológica, mas existencial. Isso culmina na maldição do dia de seu nascimento (Jr 20:14-18), um paralelo direto com Jó (Jó 3), que sinaliza um desejo de aniquilação ontológica, o apagamento total do seu ser como única saída para a dor insuportável da mediação profética.

4. Considerações Finais: A Teologia do Fracasso e a Fidelidade na Dor

A experiência de Jeremias oferece uma contribuição fundamental para uma teologia do profetismo. Ela desromantiza a figura do profeta, apresentando-o não como um herói triunfante, mas como um ser humano frágil, esmagado pelo peso de sua vocação. A "eficácia" de seu ministério não pode ser medida pela conversão maciça do povo — que não ocorreu —, mas pela sua fidelidade em continuar a proclamar a palavra, mesmo quando esta lhe era pessoalmente destrutiva.

A crise de Jeremias revela que a verdadeira profecia, em contextos de colapso moral e social, é inerentemente impopular e custosa. O lamento do profeta não é um desvio de conduta, mas uma parte integrante e teologicamente significativa de sua missão. Através de seu sofrimento, ele não apenas comunica uma mensagem de juízo, mas também a encarna. Ele se torna um símbolo vivo da dor de Deus com o pecado de seu povo e da tragédia de uma aliança rompida.

Em última análise, a figura do "profeta que chora" antecipa, em sua persona, a imagem do "servo sofredor" de Deutero-Isaías. Jeremias nos ensina que, em certas conjunturas históricas, a fidelidade a Deus pode não se manifestar no sucesso, mas na capacidade de suportar o fardo da rejeição e, no meio do abismo do questionamento e da desesperança, ainda assim clamar ao Deus que parece ter se tornado um adversário.

Referências Bibliográficas:

BRUEGGEMANN, Walter. A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

HESCHEL, Abraham J. Os Profetas. São Paulo: Editora Unesp, 2019.

LUNDBOM, Jack R. Jeremiah 1-20. New Haven: Yale University Press, 1999. (The Anchor Yale Bible Commentaries).

SHARP, Carolyn J. Prophecy and Ideology in Jeremiah: Struggles for Authority in the Deutero-Jeremianic Prose. London: T&T Clark, 2003.

Aprenda mais sobre o profeta Jeremias:

 

Daniel Santos Ramos (@profdanielramos) é professor (Português/Inglês - SEE-MG, EJA/EM/EFII), colunista do Guia-me e professor de Teologia em diversos seminários. Possui Licenciatura em Letras (2024), Bacharelado/Mestrado em Teologia (2013/2015) e pós-graduação em Docência. Autor de 2 livros de Teologia, tem mais de 20 anos de experiência ministerial e é membro da Assembleia de Deus em BH.

* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.

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