Ter filhos não muda só a experiência de um casal. É uma transição que reconfigura uma inteira família. Filhos se tornam pais. Irmãos e irmãs se tornam tios e tias. O cachorro fica menos fofo. Os avós parecem mais frágeis. E, no processo, a identidade de todos é renegociada.
Para mim, foi especialmente curioso reformular a imagem que eu tinha dos meus pais. Havia um ar de novidade em me ver como pai e conceber como avós as pessoas que tinham me educado desde pequeno.
Alguns dias depois do nascimento do meu primeiro filho, meu pai me deu uma nota de cinquenta reais para ajudar com a gasolina e pequenas despesas. Eu não estava esperando ajuda financeira, mas pensei: Um dinheirinho a mais. Por que não? Quando a minha esposa soube disso, ouvi uma palestra sobre o fato de que agora éramos uma família e tínhamos o nosso próprio dinheiro, mesmo que não fosse muito. Presentes para o nosso filho tudo bem, mas receber mesada, não. Respondi dizendo que não era nada de mais, que meu pai só queria ajudar. Mas ela me venceu na argumentação, como sempre, e devolvi a meu pai aquela linda nota de cinquenta.
Percebi que permanecia um filho, mas um filho que agora era em primeiro lugar um marido e um pai. Era um novo equilíbrio familiar e uma nova fase de vida. Estávamos descobrindo como estar juntos com o acréscimo de um bebê – e como nos ver uns aos outros sob essa nova ótica.
No livro Não é fácil ser pai descrevo tantas outras transições de identidade e de família. Espero que possa que ajudar casais, avós e amigos a se preparar para a chegada de uma nova fase de vida. Os dias se parecem mais preciosos depois da chegada de um filho amado. Verdades que antes subestimávamos brilham com maior significado.
Estamos vivos. Estamos juntos. Há mais um de nós.
René Breuel é escritor brasileiro que mora em Roma. Autor das obras Não É fácil Ser Pai e O Paradoxo da Felicidade, possui mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e em Teologia pelo Regent College, no Canadá.
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