Esse é o quinto de seis artigos de uma série sobre a fé e a saúde mental, que exploraram até aqui:
Os cristãos podem sofrer de doenças mentais?
Saúde mental: Do estigma religioso à compaixão de Jesus
4 práticas cristãs para o cuidado da saúde mental
Quando relacionamentos são feridos por desafios emocionais
Dessa vez, abordamos um outro tema fascinante: como determinar se experiências extraordinárias são saudáveis? Quais critérios a Bíblia propõe para examinar vozes, visões, sonhos, crenças e intuições fora do comum?
Reconheço que não é um tema simples para cristãos que creem no sobrenatural, na ressurreição de Cristo e no poder do Espírito Santo. Como o livro de Jó demonstra, a Bíblia inclui amplo espaço para o debate entre crentes que buscam entender circunstâncias difíceis. E Deus nos deu disciplinas como a medicina, a psicologia, a psiquiatria e a neurologia como parceiras da fé para o cuidado integral das pessoas.
Ao mesmo tempo, a Bíblia fornece critérios úteis que nos ajudam a cultivar uma espiritualidade viva e equilibrada ao mesmo tempo. Paulo descreveu esse discernimento espiritual quando escreveu, “Não tratem com desprezo as profecias, mas ponham à prova todas as coisas e fiquem com o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:20-21).
Aqui estão 7 critérios para a avaliação criteriosa de vozes, visões, sonhos, crenças e intuições fora do comum.
1. BASE: Confirmação bíblica em vez de novidade teológica
O primeiro critério é examinar as experiências que vivemos à luz das Escrituras. Quando o povo de Israel contemplou consultar médiuns, por exemplo, Isaías escreveu: “À lei e aos mandamentos! Se eles não falarem conforme esta palavra, vocês jamais verão a luz!” (Isaías 8:19-20).
Se alguém afirmar de ter uma mensagem vinda de Deus, o comprimento daquela palavra também é importante. “Se o que o profeta proclamar em nome do Senhor não acontecer nem se cumprir, essa mensagem não vem do Senhor. Aquele profeta falou com presunção. Não tenham medo dele” (Deuteronômio 18:22).
Critério: Essa experiência tem base bíblica ou contradiz a revelação escrita do Antigo e do Novo Testamento?
2. TEOLOGIA: Equilíbrio teológico em vez de ênfases desordenadas
Uma espiritualidade equilibrada permanece centrada em Jesus Cristo. Paulo afirmou que as multidões buscam sinais milagrosos e sabedoria impressionante, mas a maior evidência do poder e da sabedoria de Deus é a cruz de Cristo (1 Coríntios 1:22-24).
Critério: A experiência em questão reforça a centralidade de Cristo ou a diminui? Mantém o equilíbrio teológico ou enfatiza uma doutrina ou prática mais do que a Bíblia faz?
Um desequilíbrio pode acontecer mesmo quando se exalta uma doutrina bíblica de modo excessivo, perdendo o foco do que é mais essencial. Segundo o editorialista do New York Times Ross Douthat, “Nos debates do Cristianismo sobre o que constitui heresia ou ortodoxia, uma ideia recorrente é que uma heresia não é exatamente um simples erro, mas sim uma verdade que se afastou de outras verdades e acabou sendo enfatizada em excesso às custas delas.” [1]
Um exemplo de desequilíbrio teológico são os tessalonicenses, que ansiavam o retorno de Cristo tão intensamente que alguns deles deixaram os seus empregos e viviam às custas de quem continuava a trabalhar. Paulo os lembrou que ninguém sabe quando Jesus vai voltar e os exortou a honrarem os seus relacionamentos e compromissos terrenos (1 Tessalonicences 5:1-6, 2 Tessalonicenses 3:6-12).
3. PROPÓSITO: Edificação da igreja em vez de autoafirmação
Em 1 Coríntios 12, Paulo ensina que os dons espirituais são concedidos para a edificação do corpo de Cristo, e não para a exaltação daqueles que os exercem (1 Coríntios 12:24-25).
Na mesma carta, Paulo ensina que “o amor edifica” e que a fala inspirada pelo Espírito Santo promove a “edificação, encorajamento e consolação dos homens” (1 Coríntios 8:1, 14:3).
Critério: essa experiência faz bem à igreja? A ajuda a manter “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3)?
4. ATITUDE: Amor mais do que experiências impressionantes
Depois de ensinar os Coríntios sobre os dons sobrenaturais, no capítulo seguinte Paulo explica que
um grande cristão não é aquele que fala as línguas dos anjos, tem o dom de profecia, conhece todos os mistérios ou move montanhas pela sua fé. É um cristão que ama (1 Coríntios 13:1-3).
Jesus também ensinou, “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:35).
Critério: Uma certa experiência nos faz amar mais os outros? Reforça ou enfraquece os nossos relacionamentos?
5. ATMOSFERA: Compreensão, ordem e paz em vez de confusão, desordem e divisão
Depois de explicar que os dons do Espírito servem para a edificação do bem comum e se
distinguem pelo amor mais do que por picos impressionantes, Paulo afirma no capítulo seguinte que é necessário que as pessoas entendam o que seja dito nos encontros cristãos e que “tudo deve ser feito com decência e ordem... Pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz” (1 Coríntios 14:33, 40).
Critério: A experiência extraordinária em questão faz sentido? Leva ao respeito das autoridades da igreja? É confirmada pelo consenso da comunidade de fé? Ou causa alarme, desrespeito e rupturas
6. CARÁTER: O fruto do Espírito em vez das obras da carne
Os cristãos cheios do Espirito Santo não alimentam “discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja.” Essas quebras relacionais são resultado da índole humana pecaminosa. Quando Deus molda o nosso caráter, o fruto é “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio” (Gálatas 5:16-25).
De modo parecido, o clássico de Jonathan Edwards, Afeições religiosas, defende que a eloquência, o entusiasmo e a fala confiante não são características distintivas de uma obra genuína do Espírito tanto quanto a humildade, a transformação do coração e a formação do caráter de Jesus.
Os afetos verdadeiramente espirituais diferem daqueles que são falsos e enganosos, na medida em que tendem a manifestar — e são acompanhados por — o espírito e o temperamento mansos e pacíficos de Jesus Cristo. Em outras palavras, eles naturalmente geram e promovem aquele espírito de amor, mansidão, tranquilidade, perdão e misericórdia que se manifestou em Cristo... Os cristãos são semelhantes a Cristo; ninguém merece o nome de cristão se não for assim em seu caráter predominante. [2]
Critério: essa experiência me ajuda a ser mais parecido com Cristo?
7. RESULTADO: Exaltação de Deus e não do homem
Atenção aos líderes que falam mais das suas grandes experiências com Deus do que da grandeza de Deus! Experiências genuinamente bíblicas nos rendem humildes diante da majestade divina.
Paulo ensinou que “temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2 Coríntios 4:7). Enfatizou que o poder de Deus se manifesta na fraqueza humana (2 Coríntios 12:9). E repetiu: quem se gloria, glorie-se no Senhor (1 Coríntios 1:13, 2 Coríntios 10:17).
Critério: essa experiência coloca o foco em Deus ou nos homens? Enche as pessoas de adoração de Deus?
Conclusão
Esses critérios bíblicos nos ajudam a viver uma fé viva e equilibrada ao mesmo tempo.
Se uma pessoa ou movimento religioso se distingue por experiências impressionantes junto a exaltação humana, desequilíbrio teológico, confusão, desordem e relacionamentos fraturados, isso pode ser sinal somente de imaturidade espiritual.
Mas pode ser também resultado de uma fé sincera em que desafios na área de saúde mental ainda não foram cuidados por profissionais da área em diálogo com líderes cristãos.
Por outro lado, se uma pessoa ou movimento se distingue pelo amor, paz, mansidão, ordem, edificação recíproca, fruto do Espírito, centralidade de Cristo, equilíbrio teológico e exaltação de Deus dentro dos parâmetros bíblicos, glória a Deus! É esse o Cristianismo saudável que queremos viver e proteger.
[1] Ross Douthat, Believe: Why Everyone Should Be Religious (Zondervan, 2025), 148.
[2] Jonathan Edwards, The Religious Affections (The Banner of Truth Trust, 1986), 272, 274.
René Breuel é um pastor brasileiro que mora em Roma, na Itália. Autor das obras O Paradoxo da Felicidade e Não É fácil Ser Pai, possui mestrado em Escrita Criativa pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e em Teologia pelo Regent College, no Canadá. É casado com Sarah e pai de dois meninos, Pietro e Matteo.
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